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Para nós, mulheres, desculpas são bem-vindas. Mas a justiça é indispensável

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07.03.2026

Para nós, mulheres, desculpas são bem-vindas. Mas a justiça é indispensável

Eu tinha 23 anos, sozinha em Porto Alegre para as primeiras leituras de um filme. Imaginei que a viagem se resumiria a encontros com o elenco, provas de figurino e exercícios para neutralizar meu sotaque. Eu estava feliz, apesar da ansiedade. Era meu primeiro grande papel no cinema, em uma produtora que admirava muito, e com um personagem dos sonhos: uma garota sedutora, ambígua e um tanto amoral.

Na véspera de voltar para o Rio, onde morava, o diretor disse que precisava me fotografar. "Você se importa que seja no seu hotel?", ele perguntou. "Imagina", respondi. Eu estava encantada com a perspectiva de trabalhar com ele que, por sinal, era muito divertido e inteligente, e havia feito curtas-metragens antológicos. Eu me sentia diante de um prêmio por fazer parte daquele projeto.

No quarto do hotel, que nunca vou esquecer que ficava atrás do histórico Teatro São Pedro, no centro da cidade, o diretor, depois de fotografar meu rosto, pediu que eu tirasse a blusa. "Como a personagem tem muitas cenas de nudez, preciso ver o seu peito, Maria". Fiquei tensa. E não pelos motivos que você imagina.

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Eu operei o peito aos 16 anos de idade e essa foi uma cirurgia que definitivamente dividiu a minha vida em dois. Com treze anos havia pulado de um espelho que refletia uma garota sem nenhum traço de puberdade para uma menina de um metro e meio que, de uma hora para outra, se digladiava com o medo de crescer, a dor nas costas, a vergonha e sutiãs 48 que em nada combinavam com o meu nenhum interesse em virar mulher, que só aconteceu ali pelos 17.Quando, portanto, aos 23 anos, sozinha e longe de casa, eu vi os meus peitos - que sempre haviam sido motivo de insegurança - serem "testados" para uma personagem que já era minha, eu entrei em pânico. "Será que eles vão ser suficientes? Que saberão atuar?", eu pensava, aflita.Na época, apesar do desconforto, eu me deixei fotografar, decidi que aquilo não tinha sido nada demais e voltei para o Rio. Não lembro se falei do episódio para o meu então marido, acho que não. E não me recordo de, em todos esses anos, enxergar qualquer abuso de poder na cena que descrevi.

Hoje, com a revisão de comportamentos que considerávamos aceitáveis até outro dia, a história é outra. E as vésperas do dia da mulher, com algum letramento sobre desequilíbrio de gênero que evidencia a prevalência de homens em cargos de poder - e, como todas as brasileiras, me recuperando das violências recentes cometidas contra meninas, jovens e adultas, todas do sexo feminino, me vejo estacionada na frase da ministra Cármem Lúcia. "somos muito mais ponto de referência do que sujeito de direitos", disse ela, em seu voto no caso do assassinato de Marielle Franco.

Verdade. Somos a namorado do fulano, ou a ex-mulher de sicrano, ou a menina de Minas Gerais, ou a quem tem peitos bonitos ou pernas grossas, ou aquela que sofreu um estupro coletivo em Copacabana.

A propósito, uma das coisas que mais me choca nesse crime onde tudo não para de doer - o conceito de urgência do juiz do plantão noturno da delegacia onde foi feita a queixa, que não achou que uma menor violentada por cinco rapazes era algo que merecesse atitudes imediatas, a dúvida da menor, que disse ao irmão que "acreditava" ter sido estuprada, e, principalmente, a estratégia de defesa dos acusados, que negam o crime e falam em consentimento.

Foram cinco os jovens que a estupraram, certo? Não, foram mais. Porque se seus genitores e seus advogados, que, ao contrário dos acusados, são adultos com maiúscula - com o cérebro 100% formado - não tem a decência de admitir o crime, pedir perdão a vítima, e se prontificar, como homens, a aceitar as consequências da lei e mostrar que ética é um valor inegociável, esse estupro não tem fim.

Que a gente possa aproveitar o 8 de março para lembrar - nem sempre com a voz mansa, que, aliás, parecia a única possível - que somos sujeitos de direitos! E, quando dá, aceitamos desculpas, ao contrário do que muitos homens imaginam. Mas, às vezes, elas precisam vir acompanhadas de justiça.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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