Bloco Vai Quem Qué e a invasão da polícia no Butantã: violência vence?
Bloco Vai Quem Qué e a invasão da polícia no Butantã: violência vence?
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O supermercado Violeta, no Butantã, vê anualmente a invasão de foliões. Em um caos organizado, eles (nós) ficam por ali, no estacionamento do estabelecimento, enquanto o bloco Vai Quem Qué dá voltas em uma rotatória ali na frente. No domingo (17), enquanto a cena se repetia, o celular do pessoal tremia o alerta da Defesa Civil de tempestade. Não demorou dois minutos para cair o mundo e a massa colorida tentar ficar na parte coberta do estacionamento, para não ficar encharcado. O bloco sumiu por uma rua à direita. Acabou?, alguém pergunta. O Vai Quem Qué não acaba nunca, eu escuto alguém dizer e sorrio.
A festa, na verdade, segundo a prefeitura, deveria acabar às 18h. Mas explicar isso para uma multidão festejando é delicado. E por que, mesmo? A rua não é das pessoas nesses quatro dias?
Frequento o Vai Quem Qué há cerca de 15 anos. Vi os organizadores ficarem mais grisalhos durante esse período e seus filhos crescerem. Acompanhei a dissidência do Bastardo na Benedito Calixto quando a AmBev começou a colocar seus logos nos guarda-sois. Assisti à mudança do trajeto do Largo da Batata para o Butantã, em um tipo de fuga do eixo da confusão. Acompanhei a fase itinerante em que ninguém podia saber o local de concentração "pra não lotar". Vi lotar de novo no êxodo "pro outro lado do rio Pinheiros". E vivi minhas próprias transformações pessoais nesse período. A terça-feira no Vai Quem Qué, para mim, tem um sabor de tradição, de fim de ciclo, de começo de ano, de renovação. É muito especial estar ali em um ambiente tão seguro e afetivo, com tanta gente querida.
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Em 2017, grávida, eu tinha os dizeres escritos na barriga de 9 meses: "João é folião". João quase nasceu no bloco, mas consegui segurar mais 5 dias. Hoje, ele tem quase 9 anos. Partiu dele o pedido de ir ao bloco na terça. Ele mesmo havia projetado a fantasia: ir de Bart Simpson. Garimpou no armário a camiseta vermelha e o shorts azul. Fez, de sulfite amarelo, um tipo de coroa cilíndrica, para simular o cabelo do personagem. Achou que não bastou: fez um crachá onde se lia "Bart SIMPISONS". Perguntou se estava certo, eu ignorei o erro e sorri que sim.
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Estamos no supermercado Violeta às 17h. O cabelo do Bart se desfez de tanto que ele suou. Perdeu o crachá também, mas está rindo muito. Os amigos em volta. Os funcionários sorriem. João diz que está "pichando a alegria" e se dedica a fazer carinhas felizes de spray de espuminha no asfalto e nas paredes. A chuva cai.
De um segundo para o outro, muitos policiais entram ali. Eles têm postura de combate e batem os cacetetes na mão como quem chama para briga. As portas descem e decidimos sair para não ficar trancados ali dentro com a polícia. Melhor tomar chuva. Os adultos fazem um mutirão para proteger o caminho das crianças. A tempestade é de vento e também assusta. João diz que está com medo dos policiais porque eles estavam armados. Eu digo que está tudo bem e que a chuva já vai passar.
Um amigo passa de carro (eu disse que o ambiente é seguro e afetivo, mas também é meio mágico) e nos resgata. O Vai Quem Qué, ele diz, está na parte alta do bairro. Seguimos poucas quadras e estacionamos. E, quando eu digo mágico, é magia pura o que acontece: ali está sol.
Compramos mais espuminha, João ganha confete de uma cantora. Festeja. Mais gente vem, todos encharcados e festejando. A dispersão começa a se dar naturalmente. Até que a polícia volta e eu sinto um pressentimento muito ruim. Meu irmão, parado com uma máscara de cachorro de pelúcia, tenta entender porque estão entrando de carro na aglomeração de gente. Uma moto vem acelerando para cima de nós. É para dispersar, eles dizem. O bloco já havia parado, a dispersão se daria naturalmente.
João está agarrando forte minha mão de novo. Eu puxo meu irmão de lá e o grupo volta junto até o carro. "Está ficando perigoso aqui", a gente diz. É tudo muito estranho porque o Vai Quem Qué o meu Carnaval seguro, onde nada dá errado.
Voltamos para minha casa, uma nova festa se inicia e o ciclo que terminaria novamente nas imediações do supermercado Violeta se fecha com esfihas, cerveja, VT de escola de samba na TV e João montando Lego. É só então que recebemos os vídeos das bombas. Ligo para um amigo para perguntar se ele está bem, mas ninguém atende. Começo a ficar apreensiva. Não quero que o João perceba. Os amigos em casa mostram os vídeos uns para os outros. "Saímos na hora certa", alguém diz. Mas tem hora errada para ficar no bloco? Eu fico perplexa com o movimento no bar, onde estaríamos comendo para terminar a folia. Onde sentamos todos os anos. As pessoas tossem. Os garçons se protegem. O que eu faria com o João ali?Eu gostaria muito de entender como aquela alegria toda virou violência e repressão policial. Em 15 anos, nunca vi isso, eu fico repetindo. Meu amigo responde o WhatsApp, finalmente. É um vídeo em que se vê uma turma pequena na rua, os fundadores, tão grisalhos como antes, cantando baixinho: o arlequim está chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. O Vai Quem Qué resiste. E não acaba nunca.
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