Governo Lula fragiliza defesa contra sanção de Trump ao mexer na lista suja
Governo Lula fragiliza defesa contra sanção de Trump ao mexer na lista suja
Um dos principais argumentos enviados pelo governo Lula à administração Donald Trump para evitar sanções, em meio à investigação sobre práticas comerciais desleais relacionadas ao trabalho forçado, vem sendo enfraquecido pelo próprio governo.
No centro dessa polêmica está a "lista suja" do trabalho escravo, o cadastro de empregadores responsabilizados por esse crime, criada em novembro de 2003, no primeiro governo do petista. A retirada de empresas como a JBS e a BYD da relação pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, vem sendo apontada pela Inspeção do Trabalho e pelo Ministério Público do Trabalho como interferência política — o que fragiliza o cadastro.
O caso já está repercutindo na Europa e nos Estados Unidos. Reportagem de ontem do jornal The New York Times resume o tamanho da encrenca em seu título: "Autoridade brasileira incluiu a BYD da China na lista de empresas que praticam trabalho escravo. Em seguida, foi demitida — A demissão do chefe da inspeção do trabalho do Brasil colocou o governo de esquerda do presidente Lula, ex-líder sindical, em uma situação delicada".
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O Itamaraty contestou a investigação aberta pelo Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, em 12 de março, que apura falhas na proibição de importação de produtos com trabalho escravo pelo Brasil e mais 59 países. A investigação pode resultar na imposição de novas tarifas.
Na resposta, enviada nesta quarta (15) a Jamieson Greer, chefe do USTR, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirma que o Brasil é visto como um "líder global no combate ao trabalho forçado". O chanceler está certo, uma vez que o importante papel do Brasil nesse campo é corroborado por agências das Nações Unidas, como a Organização Internacional do Trabalho.
Vieira cita a "lista suja" como um elemento fundamental na política brasileira para esse tema, com o objetivo de mostrar que temos mecanismos para evitar a contaminação de nossas cadeias produtivas com esse tipo de exploração.
"Uma característica central do arcabouço brasileiro é a utilização de instrumentos baseados em transparência para reforçar a dissuasão e a conformidade em toda a economia. O Brasil mantém um Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão (comumente referido como 'lista suja'), que divulga decisões administrativas finais identificando empregadores infratores e suas respectivas unidades ou atividades produtivas", afirma o documento ao qual o UOL teve acesso.
"Esse cadastro é amplamente utilizado por instituições financeiras e por empresas nacionais e estrangeiras, incluindo grandes compradores e redes varejistas, na realização de avaliações de risco e devida diligência", conclui.
A lista, de fato, vem sendo consultada, desde 2003, por empresas e bancos do Brasil e do exterior para o gerenciamento de risco, garantindo que não seja necessário o estabelecimento de barreiras setoriais, bastando ações junto aos empregadores relacionados. Mas, para isso, ela precisa manter sua credibilidade dentro e fora do país. E isso vem sendo abalado por decisões tomadas a 350 metros do Itamaraty, no Ministério do Trabalho, que definiu a retirada das empresas na contramão da área técnica.
Responsável pela "lista suja" foi demitido após passagem da BYD pelo cadastro
Quatro dias após a BYD ter sido incluída na "lista suja", o secretário nacional de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi dispensado de suas funções no Ministério do Trabalho e Emprego. A saída foi assinada pela Casa Civil da Presidência da República na última sexta (10). É a ele que se referem não só a reportagem do New York Times, mas também as da agência Reuters e de outros veículos do Brasil e do exterior.
A gigante chinesa dos automóveis elétricos foi inserida na atualização semestral do cadastro no último dia 6, mas obteve decisão liminar da Justiça do Trabalho, sendo retirada dois dias depois. A entrada da montadora na "lista suja" teve repercussão até em Pequim. Instado a comentar sobre o caso, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou, através de sua porta-voz, que o país exige que suas empresas cumpram as leis.
Questionado, o Ministério do Trabalho e Emprego afirmou que a exoneração do secretário de Inspeção do Trabalho se "trata de ato administrativo de gestão, de prerrogativa de ministro de Estado". A Secretaria Nacional de Inspeção do Trabalho (SIT) é responsável pela fiscalização de trabalho escravo e pela manutenção do cadastro.
A Associação Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Anafitra) manifestou repúdio à exoneração, vinculou-a à inclusão da BYD na "lista suja" e afirmou, em nota, que "o episódio ocorre em meio a uma sequência de interferências" do ministro do Trabalho, Luiz Marinho. "O combate ao trabalho escravo é uma política de Estado, não pode ficar sujeito à vontade de governos ou autoridades de ocasião", afirma Rodrigo Carvalho, auditor fiscal do trabalho e membro da coordenação executiva da associação.
A BYD foi incluída na "lista suja" por ser considerada diretamente responsável por submeter 163 trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão durante a construção de sua fábrica em Camaçari (BA). O número foi identificado na primeira operação de fiscalização, realizada por uma força-tarefa em dezembro de 2024.
A questão da BYD, que chamou a atenção dos Estados Unidos e da China para o Brasil, não é ponto fora da curva. Auditores fiscais do trabalho e procuradores do trabalho vêm acusando a atual gestão de interferir no resultado das operações, avocando (chamando para si) a análise de processos administrativos já concluídos pela fiscalização.
Em setembro, Marinho avocou a decisão final sobre a entrada da JBS Aves na "lista suja", impedindo que ela fosse inserida. Depois, deu ganho de causa à empresa. Também beneficiou outras empresas responsabilizadas pela fiscalização. Em protesto, auditores fiscais do trabalho chegaram a paralisar resgates de trabalhadores no ano passado, o que afetou a maioria das superintendências regionais do Ministério do Trabalho e Emprego.
O ministério afirma que a avocação é prerrogativa prevista na CLT para o chefe da pasta. Contudo, procuradores do Ministério Público do Trabalho ouvidos pela reportagem apontam que o uso desse mecanismo é inédito e não foi feito nem durante a gestão Jair Bolsonaro, um crítico aberto ao combate ao trabalho escravo. E discordam dele, avaliando que entra em choque com tratados internacionais ratificados pelo Brasil.
Nomes de pessoas físicas e jurídicas são inseridos na "lista suja" após as autuações que sofreram serem confirmadas. Ou seja, após o empregador ter direito à defesa administrativa em duas instâncias. Em 2020, diante de questionamentos de construtoras, uma decisão do plenário do STF reafirmou a constitucionalidade do cadastro.
Em setembro do ano passado, o empresário Joesley Batista, dono da JBS, empenhou-se em ajudar o governo Lula a flexibilizar o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. A medida, que gerou perda de empregos e prejuízo às empresas, havia sido articulada por Eduardo Bolsonaro e aliados a fim de pressionar o Brasil a não condenar Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. Com forte presença nos EUA, Joesley teve reunião com Trump para tratar do tema.
Agora, ironicamente, uma decisão favorável à empresa de Batista, que ajudou no tarifaço do ano passado, poderá ser usada pelo governo norte-americano para questionar o Brasil sobre a fragilidade da "lista suja", um dos argumentos centrais apresentados pela diplomacia brasileira para afastar o país de um novo tarifaço.
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