Bets se tornam adversárias eleitorais de Lula ao endividar trabalhadores
Bets se tornam problema eleitoral de Lula ao deixar trabalhador no vermelho
Indicadores econômicos melhoram, mas o humor da população não. O PIB cresce, o desemprego cai, a renda média sobe e a inflação dá sinais de controle — ainda assim, a sensação difusa é de aperto. Tem muito a ver com a percepção do custo de vista com preços que subiram e não caíram, mas há um elemento novo nessa equação: a transformação silenciosa do orçamento das famílias pelas bets.
O presidente Lula tem razão ao apontar o endividamento como peça-chave dessa contradição. Mas o diagnóstico ainda parece incompleto se não incorporar um fator que vem drenando renda de forma quase invisível: o vício nas apostas on-line.
Reportagem de João José Oliveira, no UOL, aponta que as apostas on-line se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento, segundo estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School.
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Estamos falando de um mercado que movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e que se infiltrou no cotidiano com uma eficiência que nem o sistema financeiro tradicional conseguiu alcançar. A diferença é que, ao contrário de um financiamento de carro ou de um empréstimo consignado, o dinheiro gasto em apostas não deixa nada de valor em troca — apenas a expectativa, quase sempre frustrada, de ganhar mais na próxima rodada.
O impacto disso não aparece imediatamente nas estatísticas macroeconômicas, mas se manifesta na vida real: na conta de luz atrasada, no carrinho de supermercado mais vazio, no remédio que deixa de ser comprado. Pesquisas mostram que uma parcela relevante dos apostadores compromete a própria renda mensal com jogos, sacrificando despesas básicas — inclusive alimentação, educação, moradia e outras serviços essenciais. Sim, bets geram carestia.
É aqui que mora o paradoxo político. A economia pode até estar melhor no agregado, mas o eleitor não come PIB, como dizia a saudosa Maria da Conceição Tavares, e vive no orçamento doméstico E, nesse território, as bets funcionam como um imposto informal, regressivo e sem retorno social. Apenas o enriquecimento de donos de plataformas e dos políticos que se aproveitam da amizade com eles.
Vale ressaltar que os recursos arrecadados através de impostos acabam sendo insuficientes diante da epidemia do vício, que causa graves problemas sociais e de saúde pública, sobrecarregando inclusive o atendimento psicológico no SUS.
Ou seja, enquanto o governo tenta vender indicadores positivos, uma parte da população está vendo sua renda escorrer pelo ralo digital. Não apenas pela manutenção de certos preços em patamares maiores que aqueles no pré-pandemia, mas por uma dinâmica de consumo que mistura entretenimento, promessa de ascensão rápida e engenharia comportamental desenhada para viciar.
O resultado é uma percepção de empobrecimento que não bate com os dados oficiais, mas é absolutamente real para quem sente. E percepção, na política, pesa mais do que planilha.
Há também um componente cruel nesse processo: ele atinge com mais força quem tem menos. Famílias de baixa renda comprometem uma fatia maior do orçamento com apostas, ampliando desigualdades e alimentando ciclos de inadimplência. Em alguns casos, até recursos de programas sociais acabam desviados para esse circuito, o que transforma uma política de combate à pobreza em combustível indireto para o endividamento.
E também os mais jovens. A ação de influenciadores que tentam convencer que as bets são uma forma de enriquecimento rápido ou de remuneração leva muito jovens a apostarem até o valor da mensalidade das universidades. Gastos com as apostas on-line esportivas estão interferindo no início da graduação em uma faculdade particular de 33,8% dos apostadores em estudo da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes).
Não se trata de moralizar o comportamento individual, mas de reconhecer um fenômeno sistêmico. A expansão das bets ocorreu em um vácuo regulatório e com uma agressividade publicitária que normalizou o risco como se fosse lazer inofensivo. Quanto mais gente joga, mais dinheiro sai da economia real e menos sobra para consumo, investimento e bem-estar.
Isso ajuda a explicar por que setores do varejo sentem queda de faturamento ao mesmo tempo em que bilhões circulam nas plataformas de apostas. Não é que o brasileiro deixou de gastar, ele está gastando em outra coisa. E essa outra coisa não gera emprego na mesma proporção, não movimenta cadeias produtivas locais e não melhora a qualidade de vida.
No fim das contas, o governo pode estar entregando uma economia mais organizada, mas enfrenta um adversário que não aparece nos debates eleitorais com a mesma clareza: a corrosão silenciosa da renda disponível.
Se não houver uma resposta mais robusta, que combine proibição da publicidade tal como ocorreu com o tabaco, campanhas educativas que mostrem que o dano causado por bets pode ser tão ruim quanto o trazido pelo crack e limites à exploração desse mercado, o risco é de desagregação social.
Com isso, a sensação de piora continuará se espalhando. E, em política, sensação costuma virar voto. Mesmo quando não corresponde exatamente à realidade dos números.
A CPI das Bets, que prometia moralizar o setor, passou vergonha no Senado, sem resultados concretos. Ficou marcada pela imagem de parlamentar mais preocupado em tirar selfie com influenciadora que promovia apostas e foi chamada para depor do que evitar que bets roubassem dinheiro e saúde dos brasileiros.
Ironicamente, diante do vácuo deixado pelos governos anteriores, Lula regulamentou as bets no final de 2023. E fez uma ameaça: "Nós vamos ver se a regulação dá conta. Se a regulação der conta, está resolvido o problema. Se não der conta, eu acabo", declarou à rádio Metrópole, de Salvador, no ano seguinte.
Corre o risco de as bets ajudarem a acabar com o governo antes disso.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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