Encefalite: a causa pode não ser infecção, e sim um ataque do sistema imune
Encefalite: a causa pode não ser infecção, e sim um ataque do sistema imune
De repente, a pessoa passa a se comportar de um jeito completamente diferente. Desatenta, parece estar em outro mundo. Pode apresentar anorexia, compulsão alimentar, ansiedade, depressão. Às vezes, alucinação. Quem a vê se preocupa.
Pode fazer movimentos involuntários ou mover-se de modo extremamente lento, exibir tiques nunca vistos antes, revirar os olhos a toda hora de um jeito esquisito. Ou ficar muda, imóvel, rígida. Ter crises epilépticas até.
Pode viver sonolenta. Mas há casos piores, de estupor, palavra que, no contexto da medicina, aponta para um rebaixamento da consciência: o indivíduo só abre os olhos e esboça alguma reação depois de ouvir um berro ou de levar uma bela sacudida. Para, daí, cerrar as pálpebras de novo. Perigo: o estupor costuma ser a antessala do coma.
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Enfim, do nada, a criatura manifesta um ou alguns sintomas da extensa coleção da neuropsiquiatria.
Todos eles são capazes de apontar para encefalites, ou seja, inflamações no sistema nervoso central.
Na maioria das vezes, elas são causadas por agentes infecciosos, como o vírus do herpes, da sífilis, do sarampo e de Epstein-Barr, para citar só alguns. E aí, nas infecções, são acompanhadas de dor de cabeça e febre, o que nem sempre acontece se a causa é diferente. Só que ninguém prestava tanta atenção em outras causas no passado recente.
Até porque achava-se que era quase exceção encontrar um cérebro inflamado por culpa, única e exclusivamente, de uma treta com o sistema imunológico do próprio indivíduo.
"No entanto, de uns 15 anos para cá, pesquisadores foram identificando anticorpos que acusam esses ataques e desenvolveram testes usando-os como marcadores para flagrar pacientes com uma encefalite autoimune", conta o reumatologista Luís Eduardo Coelho Andrade, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e médico assessor em imunologia do Grupo Fleury.
Hoje, já são conhecidos dezenas deles. O Grupo Fleury, diga-se, é um dos responsáveis — tendo como parceiros o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, e a Universidade de Viena, na Áustria — pelo projeto BrAIN (sigla de "Brazilian Autoimmune Encephalitis Network"). Trata-se de uma rede unindo 17 centros das várias regiões do país para investigar quadros assim. Isso permitiu ao Fleury criar testes que buscam pelos grupos de anticorpos mais comuns por aqui, os famosos painéis.
"A surpresa foi notar que os casos autoimunes representam cerca de um terço de todas as encefalites entre nós", diz o médico. Mas deixa bem claro que a doença continua rara: há apenas entre oito e dez casos a cada 100 mil pessoas.
Conhecer os anticorpos mais prevalentes no Brasil, porém, foi um passo decisivo. "Observamos que as crianças brasileiras só apresentavam quatro desses anticorpos. Então, por que solicitar um teste de painel completo, que tem um custo mais elevado, para elas?", exemplifica o médico do Grupo Fleury. Desse questionamento surgiu a ideia de criar um painel pediátrico, só checando a presença do quarteto que poderia estar por trás de encefalites autoimunes na meninada.
Confirmar que é uma encefalite autoimune, aliás, é essencial. Isso porque a evolução delas é bem diferente das outras. E, claro, o tratamento também.
O perfil dos pacientes
Existem dois grandes picos de casos de encefalites autoimunes. O primeiro deles é na infância e na adolescência. E o outro, dos 60 anos em diante, quando é preciso, na falta de uma infecção para justificar a inflamação no sistema nervoso, descartar se ela não tem a ver com um câncer que, às vezes, o paciente nem sabe que tem.
"Essas encefalites que são consequência de tumores malignos não são classificadas como autoimunes, embora também envolvam células de defesa", explica o médico do Fleury. É o que ele e seus colegas chamam de manifestação paraneoplásica. Algo que o câncer provoca paralelamente, em um órgão distante, mas não se trata de metástase.
No caso, a inflamação no cérebro não envolve anticorpos, como nas formas autoimunes de encefalite. Os anticorpos são lançados como mísseis por células de defesa chamadas linfócitos B, que costumam usá-los para atacar invasores como vírus.
Já a encefalite decorrente de um tumor de mama ou de pulmão, por exemplo, resulta da ação dos linfócitos T, acionados pelas nossas defesas para destruir células doentes, como as malignas. "Quando o câncer é tratado e vai embora, os sintomas dessa encefalite que é paraneoplásica também somem", garante o professor Andrade.
É sempre um grande engano dos anticorpos e das células de defesa cismarem com a cara dos neurônios e de outros integrantes do sistema nervoso central. E ninguém sabe ao certo o motivo dessa birra.
Será que é autoimune?
Uma pista é que os sintomas das encefalites autoimunes começam sutis, mas evoluem depressa e, no intervalo de três meses, o paciente pode até parecer outro sujeito.
"Claro que o primeiro passo é fazer uma ressonância do crânio para confirmar que existe uma inflamação", conta o professor Andrade, mostrando imagens em que as áreas inflamadas surgem totalmente esbranquiçadas.
Nelas, o que quase sempre aparece "em branco" é o hipocampo e outras estruturas do sistema límbico, responsáveis pelas memórias, pelo controle do apetite e pelas emoções, entre outras coisas. Isso faz a gente entender muitos dos sintomas bizarros.
Com outros exames, o médico afasta a hipótese de infecção e, se for um adulto, a de haver câncer, para daí desconfiar de ser uma encefalite autoimune.
Para matar a charada, é preciso coletar uma amostra sanguínea e outra do liquor, o líquido que banha a medula espinhal e o cérebro. "É que alguns anticorpos são encontrados com facilidade no soro", esclarece o médico, referindo-se à parte líquida do sangue. "Outros, porém, são mais detectados no liquor."
O material é usado em testes de imunofluorescência indireta: em uma lâmina, o pessoal fixa o tecido do sistema nervoso de roedores. Quando o soro, por exemplo, é colocado ali, os anticorpos podem se ligar em algumas áreas. Então, são colocados outros anticorpos, criados em laboratório, que se ligam aos anticorpos da amostra. Detalhe: eles são, vamos dizer, coloridos. E deixam coradas as áreas em que os anticorpos do paciente grudaram, entregando onde estão.
Segundo o professor Andrade, conforme o padrão dessa pintura microscópica, é possível saber quais anticorpos estão envolvidos. O resultado pode levar até 15 dias, embora os médicos possam receber informações preliminares para não haver perda de tempo.
O paciente deve receber medicações imunossupressoras para conter a fúria dos ataques ao sistema nervoso central. "Mas, diferentemente de um indivíduo transplantado, por exemplo, que precisará desse tipo de remédio pelo resto da vida, a pessoa com encefalite autoimune é medicada só por um tempo", diz o professor Andrade.
Com o uso temporário de imunossupressores, existem casos em que o comportamento volta a ser como antes e todos os outros sintomas nunca mais dão as caras. Mas também existem aqueles em que, de tempos em tempos, tudo volta e o tratamento é reiniciado por mais um período, até reinar a calmaria outra vez. E, sim, em alguns indivíduos, um ou outro sintoma nunca some de vez.
Difícil dizer quem será quem. O que se sabe é que, como sempre, quanto antes o tratamento começar, melhor. E ter em mente que um comportamento esquisito pode ser encefalite e que nem toda inflamação no cérebro é infecciosa para, assim, testar anticorpos é um jeito de melhorar as chances de o cérebro ficar bem depois de ser atacado.
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