Declaração contra o ciúme, esse sentimento inútil e grosseiro
Declaração contra o ciúme, esse sentimento inútil e grosseiro
Hoje não preciso fazer uma aproximação hesitante, narrar um ou dois casos exemplares, insinuar com delicadeza o que pretendo dizer: o sentimento que tomo como tema eu sei que o leitor e a leitora já conhecem. Não direi que é universal porque não há nada no mundo que o seja. Não direi que ninguém escapa ao seu jugo, ou que ele afeta a todos igualmente, pois seria falacioso ou no mínimo imprudente. Mas direi que é um sentimento antipático, desagradável, grosseiro, que no entanto parece se espalhar por toda parte como se não ofendesse ninguém, parece gozar de uma estranha legitimidade, quase um prestígio ou uma institucionalidade.
Falo do ciúme, como já se sabe. Falo desse sentimento que provoca náusea em uns e temor em outros, essa coisa pervasiva que já se provou sem valor nem justiça nem utilidade. Alguém dirá que o ciúme nos rendeu obras literárias memoráveis, e terá absoluta razão, sobretudo se evocar Shakespeare, Austen, Machado, Robbe-Grillet, Beauvoir. Mas a isso terei que responder que os mais terríveis afetos já inspiraram obras grandiosas, como o ódio, a perversidade, a ganância desenfreada, e nem por isso são bem aceitos nas relações cotidianas, nos vínculos amorosos, bem ali onde deveriam reinar a ternura, a suavidade e alguma beleza eventual.
Antes de partir para o ataque me valho de uma ressalva: aqui não escrevo como quem........
