A nova promessa de futuro do Brasil, feita de cinema, música, riso
A nova promessa de futuro do Brasil, feita de cinema, música, riso
"Brasil, país do futuro. Sempre." Com essa tirada tão dramática quanto sutil, Millôr Fernandes soube descrever o que é talvez uma contradição insuperável da sociedade brasileira, sua eterna ambição contraposta à sua impossibilidade perene. Grandes sonhos de país já tivemos, grandes sonhos ainda temos, e no entanto parece que tudo se adia constantemente, tudo fica para um próximo inatingível momento. Não chega a pujança que queremos, não se sanam as desigualdades, não cessam as violências: o futuro do país vai se estendendo num sempre inquietante presente.
Mas é possível narrar as oscilações de um orgulho nacional em anos recentes, é possível observar as transformações constantes de uma visão de futuro, e nesse exercício algo mais se entende, algo até ganha a forma de uma esperança. Parto de uma imagem que se fez icônica: a ilustração de capa da revista "The Economist" de 2009, com o Cristo Redentor tomando os ares como um foguete, sob a afirmação contundente de que o Brasil decola. Bem sabemos que o Brasil não decolou depois disso, que o tal Cristo foi abatido já nos primeiros metros de sua subida, foi arrastado ao chão numa sucessão de crises políticas que atravessou a terrível década seguinte.
De que eram feitas essas crises também sabemos muito bem. Era uma outra forma de orgulho nacional, muito mais agônico e sinistro. Era a histriônica declaração de grandeza de um país que supostamente despertava, mas que na prática se rendia a um pesadelo, num ímpeto autodestrutivo. Vimos os símbolos nacionais todos tomados em nome de um projeto retrógrado e violento, de perseguição a falsos inimigos internos, de atentado a qualquer boa transformação em andamento. Aos olhos do mundo o Brasil assumiu feições antes pouco conhecidas, uma adesão aos desvarios da extrema direita que até então não alcançavam expressão por aqui. Aos olhos do mundo o Brasil se fez estranho, muito mais tenebroso e incompreensível.
Daniela LimaCresce a chance de delação de Vorcaro
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Letícia CasadoCom unanimidade ou não, Vorcaro joga sozinho
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Milly LacombeGoverno se lambuza na lama do machismo
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Hoje, no entanto, tão poucos anos depois, já se percebe um olhar bem diferente. Não há de ser só o meu algoritmo a mostrar o renovado entusiasmo global com a cultura brasileira, com seu cinema, seu humor, seu pendor para a alegria e a festa. Uma nova ideia de futuro desponta. Não mais a do país fadado a se tornar uma potência econômica, pelo trabalho e pelo consumo de suas duas centenas de milhões de habitantes, seguindo as exigências do crescimento capitalista. Outra ideia, mais em compasso com a época, a do povo capaz de se reger por uma lógica distinta, entregue aos descompromissados compromissos de uma qualidade de vida, apesar de tudo, apesar de todas as suas agruras. Disso está feito o nosso molho, do prazer de fluir em outro ritmo, da leveza, da música e do riso a contrapor as dores cotidianas.
Millôr mais uma vez nos revela: "Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta." Nesse caso a sentença pode ter perdido sua ironia original, pode ter adquirido uma precisão inesperada. Sim, é desse caos que nos forma em nossa diversidade imprescindível, desse ruidoso burburinho em que todos falamos, gritamos, rugimos, cantamos, rimos, choramos, é desse caos que ressurge a promessa de futuro, agora mais condizente com a vocação do país. Resta saber se o voto que nos aguarda no fim do ano será para perpetuar esse processo, ou para ainda uma vez o destruir.
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