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As perguntas de uma criança sobre a Amazônia que deveriam nos preocupar

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25.02.2026

As perguntas de uma criança sobre a Amazônia que deveriam nos preocupar

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Recebi um e-mail que me fez parar tudo o que estava fazendo. Era de um estudante de nove anos do ensino fundamental de uma escola em Illinois, nos Estados Unidos. Ele estava pesquisando sobre a Amazônia e queria saber: o que aconteceria se a floresta fosse destruída? Todos os animais morreriam? O que acontece quando cortamos as árvores? E se os animais começassem a nos machucar?

Respondi ao estudante com a seriedade que perguntas como essas merecem. Não foi apenas uma resposta baseada na minha experiência de pesquisa, mas também apoiada em estudos científicos recentes. Neste artigo, reproduzo a resposta que forneci ao estudante, mostrando que a conservação do ecossistema amazônico é essencial para a promoção da saúde na região e até mesmo globalmente.

Iniciei a resposta com um axioma da conservação ambiental. Se a floresta fosse completamente destruída, a maioria dos animais provavelmente se extinguiria. Isso acontece porque a destruição do habitat — ou seja, a "casa" dos animais — é a principal causa de extinção de espécies em todo o mundo.

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Um segundo ponto que abordei foi o efeito da fragmentação da floresta. Este é um resultado do desmatamento espalhado por toda a Amazônia. A fragmentação cria remanescentes florestais de diferentes tamanhos, geralmente isolados por monoculturas de soja e pastagens, e também constitui uma forma de matar animais.

As florestas fragmentadas contêm menos espécies por área em comparação com florestas intactas. Assim, as taxas de extinção local tanto de polinizadores quanto de animais dispersores — como borboletas, besouros, aves e primatas — são mais altas em fragmentos de menor dimensão. A morte de animais está associada à redução da disponibilidade e da diversidade de plantas, sementes e frutos.

Comentei também sobre o efeito do corte seletivo de árvores, um tipo de desmatamento progressivo, que leva à morte de animais. Um exemplo desse efeito pode ser observado nas espécies do gênero Copaifera, popularmente conhecidas como pau-de-óleo e copaíba. Alguns animais têm fases críticas de seu ciclo de vida nas copaíbas. Por exemplo, a espécie Copaifera langsdorffii sustenta a vida de 23 espécies de insetos.

Esses insetos usam suas folhas e galhos para depositar seus ovos. Os ovos depois se transformam em larvas e, posteriormente, em insetos adultos. Todas essas 23 espécies usam somente a Copaifera langsdorffii para completar seu ciclo de vida; sendo assim, se essa espécie desaparecer de um fragmento, as 23 espécies de insetos que dependem dela também desaparecerão desse fragmento.

Portanto, se a Amazônia fosse totalmente destruída ou fragmentada, a maioria dos animais não sobreviveria, porque, sem floresta saudável, não há como manter ciclos de vida, alimentação e reprodução. De forma semelhante, se árvores de espécies específicas forem cortadas seletivamente, a tendência é a extinção local das plantas e dos animais que dependem delas para sua nutrição e reprodução.

Riscos do aumento do contato entre humanos e animais silvestres

A outra parte das perguntas do aluno de Illinois dizia respeito aos riscos dos animais machucarem os seres humanos. Para responder a essa pergunta, recorri ao recém-publicado Relatório de Avaliação da Amazônia 2025, cujo capítulo 4 tratou de saúde. O capítulo apresentou os riscos de transbordamento zoonótico — ou seja, doenças infecciosas transmissíveis naturalmente entre animais e seres humanos, causadas por vírus, bactérias, parasitas ou fungos — e outros problemas de saúde relacionados à degradação ambiental.

O desmatamento da Amazônia está diretamente ligado às doenças transmitidas por vetores (por exemplo, mosquitos, carrapatos e roedores). Esses vetores transportam e transmitem patógenos infecciosos (vírus, bactérias, parasitas) entre animais ou de animais para humanos. Algumas doenças transmitidas por esses vetores incluem dengue, doença de Chagas, leishmaniose cutânea, malária e febre amarela. De fato, 75% das novas doenças infecciosas, ou aquelas com incidência crescente, são causadas por agentes patogênicos que "transbordam" dos animais para as pessoas, e o desmatamento aumenta os riscos de doenças infecciosas emergentes.

Além disso, a criação de bordas florestais, onde as periferias urbanas tendem a se desenvolver, também aumenta a probabilidade de contato entre pessoas e animais silvestres. Isso pode gerar surtos de doenças emergentes. Atualmente, duas novas epidemias se originaram na Amazônia: a Febre Mayario e a Febre Oropouche, ambas causadas por vírus e transmitidas por mosquitos.

Segundo o Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), a febre Oropouche infectou 11,6 mil pessoas em 22 estados brasileiros em 2024. A doença é causada por um vírus, transmitido principalmente pela picada do inseto Culicoides paraensis, popularmente conhecido como maruim ou mosquito-pólvora. Além disso, a Fiocruz e a Evandro Chagas, de Belém, já mapearam outras 46 zoonoses. Portanto, há riscos de algumas dessas 48 zoonoses amazônicas se tornarem pandemias.

Outros riscos à saúde ligados à degradação ambiental incluem a fumaça dos incêndios florestais, que reduz a expectativa de vida de 2 a 4 anos em áreas com alta concentração deste poluente — como o oeste-sudoeste da Amazônia — e causa 150 mil casos de doenças cardiovasculares e respiratórias por ano nos 772 municípios da Amazônia legal no Brasil; a queimada que favorece a migração de roedores e a caça que aumenta o contato entre humanos e animais, ambas ampliando a transmissão de zoonoses; além de outras doenças que não serão abordadas aqui.

As principais recomendações para a promoção da saúde na Amazônia

As recomendações apresentadas neste artigo fazem parte do capítulo sobre saúde do Relatório de Avaliação da Amazônia 2025. O estudante que me escreveu não pediu recomendações. No entanto, ao refletir sobre suas perguntas neste artigo, torna-se necessário indicar caminhos recomendados pela ciência.

As principais recomendações incluem interromper o desmatamento, os incêndios florestais, a degradação, a caça e o comércio de animais silvestres e a criação intensiva de gado perto de áreas naturais. Além disso, é necessário manter os animais domésticos longe das bordas das florestas e reforçar as iniciativas no campo veterinário para ajudar os agricultores a manter seu gado saudável.

Grandes projetos de restauração florestal também são recomendados para evitar que a Amazônia atinja um ponto de não retorno, o que poderia levar, em 30 a 50 anos, à alta degradação de até 70% de todas as florestas da região.

Também é fundamental estabelecer uma vigilância multissetorial para detectar ameaças de patógenos. Os sistemas de notificação de doenças animais devem estar vinculados à vigilância da saúde pública, uma vez que a mortalidade da vida silvestre pode ser tratada como um primeiro alerta de transbordamentos zoonóticos e epidemias humanas.

A ciência e a tecnologia desempenham papéis essenciais na promoção da saúde na Amazônia. É fundamental colaborar com instituições acadêmicas no desenvolvimento de testes validados para identificar patógenos e contaminantes em amostras animais. Portanto, são necessários mais investimentos para ampliar, em toda a Amazônia, a capacidade diagnóstica de instituições científicas locais e regionais.

Finalmente, é imperativo aumentar o investimento em saúde pública para pelo menos 6% do Produto Interno Bruto, destinando 30% desse montante à atenção primária à saúde.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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