CE: esquema fazia venda de emendas e cobrava propina como 'imposto', diz PF
CE: esquema fazia venda de emendas e cobrava propina como 'imposto', diz PF
A PF (Polícia Federal) afirma ter descoberto um esquema de venda de emendas operado no Ceará, que contaria com a liderança do deputado federal Junior Mano (PSB-CE). A informação consta em relatório enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal).
O parlamentar foi indiciado por quatro crimes. Ele nega as irregularidades e diz que está sendo alvo de vazamentos indevidos com interesse político. Expulso do PL no fim de 2024, Junior Mano está agora no PSB, onde é pré-candidato ao Senado.
A PF diz que o esquema movimentou quase R$ 800 milhões em recursos públicos entre 2020 e 2025. Somente entre 2023 e 2025, o relatório identifica um total de R$ 455,5 milhões como receita das empresas suspeitas de envolvimento no esquema, calculando um caixa 2 de cerca de R$ 54,6 milhões.
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Mensagens interceptadas pela polícia mostram que conversas tratavam de desvios de 10% a 15% do valor das emendas, que eram chamados nas conversas de "imposto".
"A menção reiterada à cobrança de 'imposto' (possivelmente comissão irregular ou fração de repasse), e o controle informal da origem e destino dos recursos reforçam o indício de práticas ilícitas na manipulação e rateio de valores públicos", afirma o relatório.
A investigação começou em 2024 após denúncia da ex-prefeita de Canindé (CE) Maria do Rozário, hoje fora da vida política, que alegou estar sendo ameaçada. Ela prestou depoimento e afirmou que Junior Mano e seu grupo ofereciam emendas mediante o compromisso de devolução de até 15% dos valores.
O esquema seria liderado pelo deputado federal e pelo empresário Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto do Choró —eleito prefeito de Choró pelo PSB em 2024, ele foi cassado antes de assumir o cargo e está foragido desde dezembro de 2024.
A PF afirma que os dois dominavam uma organização criminosa que operava um esquema de "compra de emendas", com retornos financeiros previamente estipulados para abastecer campanhas eleitorais e enriquecer indevidamente.
Segundo a investigação, o esquema era facilitado pelo uso de emendas RP-9 (apelidadas de orçamento secreto) e transferências especiais (emendas Pix). As duas modalidades possuem baixa rastreabilidade e permitem uso discricionário (com liberdade na escolha do uso do dinheiro) pelos prefeitos aliados.
A PF diz que o esquema funcionava sob uma lógica de mercado: o grupo tratava as emendas como ativos financeiros, cobrando um percentual fixo de propina sobre cada repasse destinado aos municípios cearenses.
As conversas interceptadas ilustram essa prática. Em um dos diálogos, registrado em 26 de setembro de 2024, Bebeto do Choró negocia abertamente uma verba federal com um assessor de Junior Mano:
"Ei, meu fi... o pessoal do Guimarães querem fazer um negócio de um milhão e meio de emenda de saúde... Que aí eu fico mais... no máximo 12%. Indicação pra Choró"
Bebeto ainda completa, visando garantir o controle do recurso: "Aí indica agora dia 6 de outubro... aí já é logo carimbada". A resposta do assessor do deputado foi curta e direta: "Pronto, Arrocha".
Pressão na Caixa: "Vá pra cima deles"
Para garantir que o dinheiro das emendas saísse rapidamente do papel e chegasse às contas de empresas de fachada, o grupo utilizava o gabinete de Junior Mano para pressionar órgãos técnicos.
O alvo principal, segundo a PF, era a Caixa Econômica Federal, responsável pela liberação de pagamentos e medição de obras ——procedimento necessário para que o banco autorize o pagamento de uma etapa de obra pública.
De acordo com a investigação, o deputado solicitou diretamente à presidência da Caixa a nomeação de aliados para cargos estratégicos, como a superintendência da Gigov (Gerência Executiva de Governo) no Ceará, justificando que precisava "colocar os recursos para encaminharem".
Na ponta operacional, um assessor do parlamentar foi designado para exercer pressão sobre gerentes e técnicos do banco.
Em áudio capturado, Bebeto ordena que Adriano pressione um servidor da Caixa: "Meu fi vai pra cima do [servidor], usa tuas amizades aí... quero finalizar uma situação com o nosso deputado".
O assessor responde confirmando as investidas: "Bebeto, hoje eu fui na Caixa cobrar isso daí rapaz, tu é doido. Falei foi com o gerente mesmo... Me dê até amanhã pra eu resolver isso daí".
Outro episódio foi identificado em troca de mensagens no dia 13 de setembro de 2024, entre Bebeto do Choró e um assessor parlamentar de Junior Mano. Na conversa, o empresário cobra a finalização de uma medição referente a um contrato de pavimentação asfáltica.
Ele afirma que precisava disso com urgência para poder "tirar esse dinheiro". Para a polícia, a frase indica que ele buscava ser reembolsado por valores que já havia antecipado informalmente. A fala foi interpretada como mais um indício de uma operação financeira paralela e indevida.
Influência sobre prefeituras
A PF concluiu que o grupo não buscava apenas apoio político, mas a "apropriação de prefeituras".
A estratégia, segundo a investigação, consistia em usar o dinheiro desviado de contratos anteriores para financiar vitórias de candidatos aliados.
Uma vez eleitos, os prefeitos retribuíam, direcionando licitações de asfalto, transporte escolar e construção de "areninhas" para empresas controladas pelo grupo.
O deputado Junior Mano, diz a PF, também monitorava o avanço territorial, afirmando em conversa com Bebeto: "Cascavel, Morada Nova, Canindé, eleição é nossa".
Em mensagem interceptada, Bebeto do Choró resumiu a lógica do esquema em uma fala a um aliado: "Pode dar segurança a eles, quem ganha a eleição é nós viu. Você sabe que eu não tenho paixão não, sou empresário, sou investidor".
Junior Mano e Bebeto do Choró foram indiciados por:
Organização criminosa;
Corrupção eleitoral e
Falsidade ideológica.
O que diz Júnior Mano
A defesa do deputado federal enviou uma nota em que nega as acusações; leia na íntegra:
"Depois de um ano de uma ruidosa investigação, a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o deputado Júnior Mano. As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas. Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais.
O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade. É lamentável o vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano.
Esperamos que o inquérito aberto pela PF para apurar o vazamento de dados protegidos por sigilo apresente uma resposta clara contra o uso de informações processuais com fins políticos."
A defesa de Bebeto de Choró afirmou ao UOL que "não comenta estratégias relacionadas a processos em andamento, por entender que tais discussões devem se limitar ao âmbito judicial".
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