Que casas queremos construir?
A crise da habitação está hoje no centro da discussão pública. Fala-se de construir mais, de reabilitar o que existe, de regular o mercado e de mobilizar património devoluto. Mas talvez seja necessário acrescentar outra pergunta: que casas queremos construir – e que condições queremos garantir para que continuem a servir quem as habita daqui a 50 anos?
No doutoramento em Arquitetura, desenvolvido no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa / Centro em Território, Urbanismo e Arquitetura (CiTUA) (1), estudei três grandes operações de habitação em Lisboa: Olivais Norte, Olivais Sul e Telheiras Sul. Construídos entre os anos 1960 e 1980, em contextos políticos, económicos e sociais distintos, estes bairros partilharam uma ambição comum: responder a uma crise habitacional profunda. No seu conjunto, deram origem a cerca de 13 mil fogos para mais de 61 mil habitantes.
A investigação levou-me aos arquivos, às plantas originais e aos discursos da época, mas também às casas habitadas. Entrei em apartamentos, falei com moradores, fotografei e redesenhei transformações, e observei a forma como a arquitetura foi sendo usada, adaptada ou contrariada pelo quotidiano.
A primeira lição talvez seja esta: quando nasce de uma visão ampla, a habitação não é apenas alojamento. É bairro, cidade e comunidade. Nos Olivais e em Telheiras, construir casas significou desenhar ruas, escolas, comércio, espaços verdes e equipamentos, lembrando que política de habitação e planeamento urbano não podem ser pensados separadamente.
A segunda evidência é........
