Vamos lá fora resolver isto?
A reação de Luís Montenegro tem uma virtude, torna objetivo o que para muitos seria ainda subjetivo: Passos Coelho é o líder da oposição interna no PSD. Mas desafiar Passos para ir a eleições internas agora tem muito mais defeitos do que virtudes. Incluindo isto: é uma criancice. O senhor primeiro-ministro não aguenta uma crítica? É o que parece.
Passos diz «o Governo não reforma» e Montenegro desafia-o para um duelo com pistola eleitoral. É como atirar-se para o chão e fazer-se ao penálti, ou a versão não-rufia do vamos-lá-fora-resolver-isto. Há um ano – há precisamente um ano –, Montenegro ativou a armadilha política ao PS da moção de confiança, e o PS caiu como um patinho: eleições antecipadas. Mas então o caso era diferente, era a seriedade de Montenegro que estava em causa, e ele quis revalidá-la nas urnas. Agora, propor a Passos ir a eleições internas é quase ridículo. Sobretudo sabendo-se que Passos não avançará. Até porque perderia. Não tem soldados no partido.
Nem Montenegro é virgem ofendida, nem Passos é virgem na ofensa: aqui toda a gente é rodada na política e sabe o que está a fazer. E claro que será cruel para o primeiro-ministro ter de lidar com tanta oposição. É sinal dos tempos de fragmentação: antes, um primeiro-ministro como António Costa lidava com um líder da oposição, o do PSD. Com a ascensão do Chega, Luís Montenegro passou a pendular entre dois líderes de oposição de porte semelhante, André Ventura e José Luís Carneiro. Mas de agora em diante, lida com três: também Pedro Passos Coelho sobe ao púlpito.
A questão é essa: só há púlpito porque há plateia. Passos Coelho é ouvido porque preenche um vazio. O vazio do partido, pela ausência de reformas concretizadas (tirando a da imigração, quase completa, como já aqui escrevi); e o vazio da oposição, entre um Chega que, para já, destrói sempre e um PS que, para já, não constrói nada.
Houve uma frase pouco lida na entrevista de Pedro Passos Coelho ao ECO na semana passada, a de que ele crê que, quando o PSD perder as eleições legislativas, quem as ganhará não será o PS, mas o Chega. Alvitrar tal desfecho é legítimo, mas é ainda assim alvitre. É por essa convicção que Passos se insinua, ele quererá integrar o Chega no arco do PSD numa eleição (ou pós-eleição) futura, pensamento que parece bastante ousado. Mas está tudo a pensar em 2029, daqui a três anos, tanto Montenegro como Passos.
Como António José Seguro.
O novo Presidente da República toma posse na próxima semana e trará uma mudança radical de estilo e de discurso: mais formal, menos frequente, mais institucional. Mas também mais estável, em relação a si próprio e ao sistema. Seguro quererá tudo menos uma birra no PSD, e preferirá concentração na resposta à crise criada pelo mau tempo na zona Centro e equilíbrio na avaliação dos impactos da nova guerra no Médio Oriente. Pensando bem, Seguro quer ser como Presidente o que se insinuou na campanha eleitoral: não o aquecedor de espíritos, não o espalha-brasas, mas o adulto na sala. Ficamos agradecidos.
