menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Revisão por Pares ou Ficção Científica?

14 0
22.04.2026

Artigo: As revistas científicas atravessam uma crise silenciosa, sendo cada vez mais difícil encontrar pessoas disponíveis para fazer revisão por pares. Os convites ficam sem resposta e os editores acumulam rejeições até conseguirem dois ou três revisores por artigo. Do outro lado da trincheira, um investigador pode receber diariamente um ou dois pedidos para rever artigos, publicar ou ser editor convidado em edições especiais. À primeira vista, poder-se-ia pensar tratar-se de “dores de crescimento” de um modelo de sucesso, mas poderá ser antes uma forma de resistência a um sistema que depende de trabalho gratuito para sustentar uma indústria altamente lucrativa.

A revisão por pares continua a ser o alicerce da credibilidade científica. No entanto, esse alicerce assenta em horas não remuneradas de investigadores já sobrecarregados por aulas, candidaturas a fundos, auditorias e pela pressão constante para publicar. Ao mesmo tempo, grandes grupos editoriais apresentam elevadas margens de lucro, alimentadas por investigação financiada, em larga medida, com dinheiros públicos. As universidades pagam para ter acesso às revistas, os autores pagam para publicar e os revisores não recebem qualquer compensação.

Alguns casos recentes vieram expor fragilidades profundas deste sistema. A exclusão da revista Science of the Total Environment da Web of Science Core Collection, na sequência de investigações que detetaram manipulação da revisão por pares, com utilização de identidades falsas por parte de revisores e conflitos de interesses, tornou evidente como estratégias de crescimento rápido podem comprometer o rigor e a qualidade do processo de revisão por pares.

Neste contexto, o episódio protagonizado pelo matemático espanhol Pascual Diago é particularmente elucidativo. O docente da Universidade de Valência resolveu aceitar o convite de uma revista fora da sua área de conhecimento, a Clinical Journal of Obstetrics and Gynecology, que o instara a submeter um artigo. Em poucos minutos, recorrendo ao ChatGPT, redigiu um texto com o título “Paradoxos obstétricos e equações didáticas: O impacto do ensino da matemática no parto e além”, onde estabelecia uma improvável relação entre números primos e desejos de grávidas. O conteúdo era desconexo e o próprio autor admitia não o compreender, mas acabou por ser aceite pouco tempo depois, apenas com ligeiras alterações.

Publicam-se atualmente cerca de 3,5 milhões de artigos por ano, distribuídos por aproximadamente 45 mil revistas, num circuito onde circulam milhares de milhões de dólares. A mentalidade publish or perish (“publicar ou perecer”) transformou-se no eixo central da progressão académica, em que o número de artigos, o fator de impacto e o índice h se tornaram nas métricas dominantes. Passou a ser mais importante publicar muito, mesmo que isso não acrescente conhecimento ou resulte em trabalhos de baixa qualidade, o que constitui um perigo para a evolução e credibilidade da ciência.

Sem confiança, a ciência perde o seu ativo mais valioso. Num ambiente saturado de notícias falsas, qualquer falha é amplificada. Se os cidadãos começarem a duvidar da integridade do processo científico, o futuro torna-se sombrio.

A crise dos revisores é apenas a face visível de um problema estrutural. Reformar o sistema exige reconhecer formalmente o trabalho de revisão, com valorização efetiva e, sempre que possível, compensação adequada, reforçar a transparência dos processos editoriais e diminuir a dependência acrítica de métricas puramente quantitativas.

A ciência desenvolveu-se a partir do escrutínio exigente e de um compromisso partilhado com a responsabilidade coletiva. Poderá ter chegado o momento de recentrar o sistema na solidez e relevância do conhecimento gerado, em vez de privilegiar a mera acumulação de publicações. Impõe-se, por isso, uma revisão dos modelos de avaliação, de modo a criar condições para que os investigadores se possam dedicar a trabalho científico de elevada qualidade, sem se deixarem condicionar por exigências de resultados imediatos.


© SOL