As noites de sábado são de best
Sábado é um dos dias da semana mais complicados para fazer programação televisiva e também para se ser espectador. De um lado, os programadores sabem que sábado é o dia em que as pessoas saem de casa e mais facilmente dispensam o que a televisão tem para lhes oferecer. Os espectadores, por seu lado, vão passear porque sabem que a programação televisiva não tem nada de novo para lhes oferecer ao sábado. É um cenário oposto ao win-win em que emissor e receptor antecipadamente perderam qualquer esperança e vontade em mudar o paradigma e estão confortáveis com isso.
Aliás, basta olhar para a programação de sábado à noite dos nossos três canais principais para se perceber que há muito tempo que atiraram a toalha ao chão e deixaram de se preocupar com as audiências. A TVI apresenta Simply The Best, a SIC Family Feud, a RTP voltou com nova temporada de Taskmaster. Sim, três canais portugueses, três programas com títulos em inglês. É o sonho molhado da Nova SBE aplicada às nossas velhas televisões...
Timeline de sábado à noite nas nossas televisões, vamos a isso.
A TVI termina o noticiário de sábado às 21h08, enfia com dezassete minutos de publicidade, e inicia Simply The Best às 21h25, hora prevista. Muito bem.
A SIC termina o noticiário às 21h28, enfia com um recap de dois minutos do Family Feud, enche dezassete minutos de publicidade, e começa o Family Feud às 21h47. Já vai a TVI com quase meia hora de dianteira.
A RTP, mais relaxada nestas competições, fecha o noticiário às 21h00, emite mais um episódio de Missão 100% Português, e estreia a nova temporada de Taskmaster às 22h00. Vai lançada a TVI com 35 minutos de emissão de Simply The Best.
Portanto, durante 22 minutos, a TVI concorre sem oposição sábado à noite. O que acontece nesses 22 minutos de Simply The Best? Um grupo de artistas sobe ao palco para cantar uma versão de tema de Contentores, dos Xutos. Cinco minutos depois, entram os apresentadores, Maria Cerqueira Gomes e Manuel Luís Goucha. Goucha é uma espécie de pau para toda a obra na TVI, há uns anos ele disse que não queria apresentar o Você na TV a vida inteira, para não correr o risco de ficar estereotipado, mas depois do Você na TV já deve ter rodado por uma boa dúzia de programas cujo nome entretanto nos fomos esquecendo. Maria Cerqueira Gomes foi contratada pela TVI para substituir Cristina Ferreira, que na altura tinha assinado pela SIC. Quando Cristina Ferreira regressou à TVI, Maria Cerqueira Gomes ficou sem chão, até hoje. A assumida leveza com que se apresenta, ou com que apresenta os seus programas, permite-lhe sobreviver muito bem a essa ausência de chão, mas em televisão essa inexistência de um programa que solidifique a sua graça e personalidade muitas vezes sai cara.
Goucha começa por dizer que este novo talent show da TVI recebe jovens que já passaram por outros programas de talentos, o que nos leva a pensar que se trata de um programa requentado. Esse espírito confirma-se no júri de “clássicos” do Simply The Best: Rita Guerra, João Patrício e João Melo, dos Fúria do Açúcar.
Maria Cerqueira Gomes obriga Rita Guerra a levantar-se, porque ela está super sexy. Goucha diz que o vestido de Rita Guerra é da Fátima Lopes, “ainda a Fátima Lopes não tinha a fama internacional”. Como aparte, também na noite de sábado último, a RTP2 emitiu o filme Crónica dos Bons Malandros, onde se via um Goucha lingrinhas com 29 anos, ainda não tinha ele a fama internacional que tem hoje.
Minutos depois, pediram a João Melo para também ele desfilar com o seu lindo fato, mas quando o homem saiu de palco acabou por cair nos degraus, um momento digno de Pedro Abrunhosa. Ainda no outro dia alguém falava que “ser influencer é uma profissão de risco”, mas nunca ninguém fala do risco que é ser júri na TVI (entendedores entenderão). De qualquer forma, em apenas dez minutos de programa, a TVI ganhava as audiências da noite, tudo isto sem sequer precisar de ter alguém a cantar em palco. Quando o primeiro artista, o cantor lírico João Mendonza, começou a interpretar o clássico de Bocelli, Con Te Partiro, o nível artístico do Simply The Best subiu, e o jurado João Melo esteve muito bem em apelidá-lo de “tenor benigno”. No geral, o Simply The Best excedeu as expectativas, e para isso muito contribuiu a qualidade refrescante dos artistas, muito melhor que o Festival da Canção a semana passada.
Às 21h47, está o “tenor benigno” Mendonza a ser escrutinado pelo júri da TVI, e a SIC começa a emitir Family Feud, apresentado por César Mourão, um antigo humorista que se tornou numa espécie de Fernando Mendes da SIC. Ainda não percebi se é a SIC que vai espremer Mourão até à exaustão, se foi César Mourão que encostou às boxes, ou se se trata de um casamento de conveniência que beneficia ambas as partes. De uma forma ou outra, o casamento funciona, César Mourão parece blindado no papel de apresentador de concursos de serviço da SIC, e a SIC dá-se ao luxo de ter um João Baião para as manhãs, e o César Mourão para o resto do dia.
Family Feud é um concurso à antiga, duas famílias concorrem uma contra a outra como se fosse um drama shakespeariano, César Mourão está como peixe na água, não precisa de se esforçar muito, basta ser espontâneo e engraçado, improvisando mediante o rumo determinado pelas respostas das famílias. Mas até o improviso tem limites: quando se perguntou à família Fonseca “o que deve pedir à sua cara-metade para lhe mostrar antes de casar?“, o jovem Gaspar respondeu “a unha do pé”. Porque, segundo o concorrente, “pé bem feito, mulher bem cuidada”. A conversa teria facilmente descambado se estivesse ali o Herman José em vez do César Mourão. Mas César Mourão aos sábados à noite tem rédea curta, os tempos não estão para grandes libertinagens, e ele sabe-o.
Aos 13 minutos de Family Feud na SIC e aos 35 minutos de Simply The Best na TVI, a RTP estreou a nova temporada de Taskmaster, ainda com Nuno Markl antes do AVC, mas já sem Toy ou Cândido Costa, os habituais palhacinhos de serviço desta galinha dos ovos de ouro da RTP: antigamente tínhamos uma, duas temporadas de Taskmaster ano, agora parece um comboio de tempestades, não há pausas, são uns atrás dos outros, como os reality shows da TVI. “As noites de sábado estavam pacatas, as pessoas voltavam a sair de casa à noite, estavam a divertir-se, a sociabilizar, até a fazer o acto cívico do amor”, confirma Vasco Palmeirim no monólogo de abertura do Taskmaster. “Mas tudo isso acabou, porque voltámos para maçar as pessoas”.
Obviamente, Taskmaster não é uma maçada, bem pelo contrário. Mas a nova temporada parece ter sido feita a martelo, o elenco é pouco heterogéneo, demasiado morangos com açúcar, falta ali a truculência e a comédia física típica da meia-idade, do primeiro episódio sobressaiu a química entre Gilmário e Isabela Valadeiro, ambos muito bem, como esteve bem a nova franja de Diogo Valsassina, concorrente cujo fairplay é de elogiar: “Estive quarenta minutos à procura de uma baía que afinal era uma baia” (lê-se “báia”).
Aos cinco minutos de Taskmaster, já depois de Markl gracejar sobre a convidada Carolina Carvalho, a RTP abre um break de trinta segundos. Na SIC, César Mourão pergunta às famílias de Family Feud: “diga um tipo de som que estrague o seu bom humor?”. Na TVI, uma artista chamada Sara Ribeiro interpreta o papel principal de Adelaide Ferreira e ouve a crítica de João Melo: “conquistas sem risco são sonhos sem mérito”. Não percebi se o João Melo se referia à interpretação da concorrente se aos programas de televisão de sábado à noite.
