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Declarar já guerra aos fogos

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02.04.2026

Já passaram mais de dois meses desde que a tempestade Kristin, e o comboio de outras depressões, deixou a zona centro do país num caos de devastação. E quem viaja pelas estradas e autoestradas do continente sabe bem que, apesar de tantos esforços e intenções de cidadãos, empresas, do poder local e central, há demasiado ainda por fazer em zonas que, já de si, são sempre críticas durante a chamada época de incêndios. Impressionam as terríveis imagens de incontáveis áreas por limpar, com árvores derrubadas, principalmente pinheiros e eucaliptos, que será impossível retirar antes que o calor – que já vai dando os primeiros ares da sua graça – comece a apertar.

E que aumentam exponencialmente a matéria combustível com todos os riscos inerentes.

Não há tempo a perder.

Passamos a vida a chorar sobre leite derramado e eternamente a lamentar os flagelos que se repetem ano após ano, assistindo às mesmas tragédias, reclamando contra a falta de meios (apesar dos milhões repetidamente consumidos), debatendo o que tem de ser feito para prevenir que voltem a cometer-se novamente os mesmos erros e, depois, tornando a adiar o que sabemos que inevitavelmente terá um dia de ser feito porque não pode ficar tudo eternamente na mesma.

Se o verão for tão ventoso, quente e seco como o inverno foi ventoso, frio e molhado, não se antevê nada de bom. Nada mesmo. Bem antes pelo contrário.

A terra não está tão seca como em anos anteriores, mas os terrenos, mesmo que húmidos (só por enquanto, porque, regressado o sol, será de pouca dura), estão bem férteis e propícios para a queima, com tanta madeira e ramadas à mercê.

Em primeiro lugar, há que aproveitar a água que sobeja – e foi tanta a que teve de se desperdiçar para o mar – para garantir que as charcas (sempre tão necessárias quanto raras para os bombeiros e meios aéreos) no momento em que os fogos apertarem estão lá para o reabastecimento. E quantas mais houver melhor, por forma a garantir uma mais rápida resposta nas situações de emergência.

Nos últimos anos, de seca, um dos problemas no combate aos fogos foi precisamente a falta de água e as distâncias que bombeiros e meios aéreos tiveram de percorrer para ter água. Neste ano, com tanta chuva, ao menos que se atalhe o problema – e o momento certo é este.

Há que olhar, agora e enquanto há tempo para corrigir as insuficiências, para o que temos e para o que precisamos de ter.

Tal como é a hora de verificar se os meios necessários para o combate aos incêndios e socorro das populações estão ou estarão disponíveis quando for preciso.

Para que não se repitam os lamentáveis episódios de inoperacionalidade dos meios quando forem precisos – avarias, falta de peças , etc., devem ser verificadas a tempo de permitir a sua reparação ou substituição; depois, será tarde.

Outra das questões que igualmente precisa de tempo – e o mais certo é voltar a não ser revisto neste ano – é o enquadramento legal dos pirómanos e incendiários que têm sido responsáveis por inúmeras ignições, muitos inclusivamente já foram condenados e até cumpriram pena, mas que estão à solta e inevitavelmente voltarão a reincidir. Por ventura, bastaria a existência de uma pena acessória de vigilância obrigatória (por exemplo, através de pulseira eletrónica) de forma a impedir a sua livre circulação em áreas florestais, rurais ou fora de um determinado perímetro urbano.

E, já agora, bem se sabendo que a desertificação do território também contribui para que muitos fogos só sejam detetados quando já assumiram proporções muitas vezes incontroláveis, valia a pena pensar em chamar as Forças Armadas a implementarem um plano de varrimento e cobertura de todas as áreas críticas, em articulação com os bombeiros e demais agentes da Proteção Civil. Não só substituindo-se com enorme vantagem quantitativa em relação aos há muito extintos guardas florestais, acelerando a deteção de ignições e antecipando os alertas para uma mais rápida e eficaz resposta dos meios de combate. Mas também podendo os mesmos militares, até ao início da época oficial dos incêndios, dar um prestimoso contributo na limpeza das matas, florestas e zonas rurais mais desertificadas, bem como no apoio à reposição de aceiros ou outras barreiras de proteção contra as chamas.

Luís Neves tomou posse como ministro da Administração Interna há muito pouco tempo e bem pode dizer-se que vai ter neste verão o seu ‘batismo de fogo’. Literalmente.

Mas, com toda a certeza, porque tem saber e experiência de sobra para não se deixar surpreender nem se queimar, já mandou tocar a rebate e desenterrrou o machado de guerra aos fogos.

mario.ramires@nascerdosol.pt


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