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Quando uma tasca precisa de explicar que é tasca, ainda o será inteiramente?

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26.03.2026

O espaço de conforto significou, durante anos, espontaneidade, ruído, copos desalinhados sobre a mesa, conversas sem cerimónia e uma cozinha onde o sabor nunca precisou de apresentação. Em Lisboa esse imaginário persiste e continua vivo mas tem vindo a sofrer uma transformação. A tasca tornou-se conceito. Nos últimos tempos multiplicam-se espaços, que recuperam o nome, os pratos, os petiscos e até certos detalhes visuais assentes na tradição popular, mas apresentam-nos filtrados por uma nova estética urbana. Azulejo cuidadosamente escolhido, carta reduzida, iluminação meticulosamente estudada, copos de vinho orgânico e um discurso onde a autenticidade surge quase como argumento de marketing. A velha tasca regressa, mas regressa domesticada.

Nada haveria de errado nisso, não fosse o risco de se confundir memória com encenação. Muitas destas novas casas procuram reproduzir uma informalidade que, paradoxalmente, já vem desenhada ao milímetro. O balcão parece antigo mas foi pensado em projeto, o prego chega em formato cozinha de autor e a sardinha é descrita como experiência gastronómica. Há um certo conforto visual mas por vezes falta o essencial, aquela imperfeição genuína que fazia da tasca um lugar diferente. Um lugar especial. Também os preços ajudam a perceber a mudança (e em alguns casos de que maneira!!). O que antes era espaço de proximidade popular, tornou-se, em vários casos, território de consumo urbano especializado. Paga-se pela atmosfera tanto quanto pelo que se come. A simplicidade passou a ter valor acrescentado e isso altera, inevitavelmente, a relação com a cidade e os seus habitantes. Uma espécie de pacto que se quebra. 

Lisboa vive hoje entre duas tentações, preservar o que lhe deu identidade ou reinterpretá-lo até ao ponto em que a originalidade se dissolve. Nem todos estes novos espaços falham totalmente, alguns (poucos) conseguem um equilíbrio raro entre tradição e contemporaneidade, mas muitos parecem mais interessados em citar a memória do que em continuar a vivê-la. Durante décadas a tasca foi um lugar onde Lisboa se explicava sem precisar de discursos. Mesas próximas, pratos simples que vinham de casa, vinho servido sem formalidade e uma relação profunda entre quem cozinhava e quem chegava. Não havia conceito, nem necessidade de o haver. Existia porque fazia parte do ritmo natural do dia a dia. O novo fenómeno diz muito sobre a crescimento e a abertura ao turismo desenfreado A capital transformou-se num lugar onde a memória deu lugar ao produto cultural. Esta modernice responde a um público urbano que procura tradição, mas uma tradição confortável, depurada, pronta a ser consumida, sem o lado imprevisível que caracterizava os originais.

É um tempo em que se quer alterar tudo e em que as palavras que prevalecem são as narrativas e as “novas roupagens”, que não são mais do que estratégias idealizadas para vender e pouco preocupadas na manutenção daquilo que é a essência. Não que tenham que se preocupar com isso, na verdade cada um é livre de fazer o que quer, mas esta nova dinâmica que procura o melhor dos dois mundos acaba ou acabará na grande maioria dos casos por ter um prazo de validade muito curto. Porque soa a falso, a plástico e a imitação. A ideia por trás destes antigos estabelecimentos trazia consigo práticas e costumes que os novos donos não querem. Querem só o selo da tradição e do que faz parte da nossa história. 

No fundo talvez a pergunta seja clara e óbvia. Quando uma tasca precisa de explicar que é tasca, ainda o será inteiramente?  

Por falar em tascas, o músico, comediante e artista de variedades que assina como Tio Jel tem agora um novo espetáculo que percorre o país oferecendo muitas gargalhadas e um espírito que me diverte. Conheço-o há vários anos e gosto da pessoa e do personagem. Se sempre foi difícil fazer comédia e ter recorrentemente piada, nos dias que correm ainda mais, à conta dos sensíveis para quem tudo é ofensa. Regressando ao Tio Jel, vai andar na estrada de Norte a Sul e com a particularidade de tocar neste tema das tascas no seu espetáculo Quem Te Viu e Quem Te Vê. Aproveite para rir e, quem sabe, talvez pare antes numa das maravilhosas tascas que ainda resistem por esse país fora.

Música para dançar no fim de semana:

Groove On Faze Action Dub (Juan Laya, Jorge Montiel)


© SOL