Haja memória!
Não pode cair no esquecimento o caso de Fábio Teixeira, o enfermeiro que foi nomeado para coordenar as energias renováveis. Começo por sublinhar que não conheço a pessoa nem me move qualquer interesse oculto, ao tecer estas considerações. Entendo apenas, como, provavelmente, noventa por cento dos portugueses, que o bom senso perdeu a esperança em Portugal e, consequentemente, se pôs a milhas.
Fábio Teixeira demitiu-se, depois do volume de críticas que a sua nomeação suscitou, não sem antes a própria ministra do Ambiente ter vindo a público dizer que não avalizaria tal escolha e que a desconhecia até a notícia surgir na Imprensa. Interrogo-me agora sobre se o próprio diretor-geral de Energia e Geologia, que, há três ou quatro dias atrás, nas redes sociais, defendeu a nomeação de Teixeira, não deveria seguir o mesmo caminho. Ele e não só. Questiono-me sobre se Manuel Nina, presidente da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030, também considera irrelevante a ausência de referências académicas e profissionais relacionadas com as áreas do ambiente, sustentabilidade ou energias renováveis no curriculum de quem é escolhido para o exercício de funções de responsabilidade na área. Presumo que a resposta à questão seja positiva, pois foi ele quem procedeu à nomeação.
Já poucas coisas me conseguem surpreender, mas estou curioso para saber o que acontece a estas pessoas e que providências foram tomadas para prevenir este tipo de situações, que assumem proporções de escândalo. Obviamente, não pretendo ser injusto para ninguém, mas que o cheiro a compadrio e clientelismo anda no ar, nos bafientos corredores do Estado, lá isso anda. Convém que o Governo arrepie caminho rapidamente e afaste as suspeitas de favoritismo no recrutamento para cargos públicos. Ainda há dias, outro caso dava origem a mais notícias: desta vez, é protagonista um jovem recém-licenciado, com estágio acabado poucos meses antes, designado para consultor coordenador no gabinete do ministro das Finanças, com um salário de 4 400 euros. Independentemente do potencial que esse jovem possa ter, estamos, de novo, perante uma situação que me parece revestida de falta de senso. Acho que o Executivo, com situações deste género, não precisa de ficar à espera da oposição para se meter em sarilhos sérios. Ele próprio se encarrega de ir abrindo brechas no capital de confiança que obteve do eleitorado, nas últimas legislativas. Não se trata apenas de um problema de comunicação, que também é. A falta de jeito está a tornar-se demasiado óbvia, em alguns ministérios e revela-se indisfarçável.
Ainda agora, novo deslize com impacto na imagem de quem governa e na perceção que suscita: não ė aceitável nem compreensível convocar uma reunião com os parceiros sociais sabendo-se que a UGT – por sinal, o único interlocutor do lado das centrais sindicais – estaria ausente e teria sugerido mesmo que se encontrasse nova data. Não é só amadorismo. É insensibilidade e arrogância. Não se constrói credibilidade nem se exibe competência dessa forma.
O País enfrenta tempos difíceis, com marcas de destruição por todo o lado, na sequência dos temporais recentes. A reconstrução e a reanimação da economia implicam um enorme esforço financeiro e de mobilização das populações e dos empresários. O País não precisa que se despeje dinheiro sobre os problemas deixando que tudo fique na mesma. A autoridade que advém da competência e do acerto na hora das decisões é atributo que se exige de quem tem de acorrer, com visão de futuro, às situações de emergência e aos problemas estruturais.
Se tal pressuposto é válido para Governos de maioria, para os que não a têm e são obrigados a viver em equilíbrios precários no Parlamento ainda mais.
Por vezes, com inusitada frequência, fica-se com a ideia de que Luís Montenegro acha que pode atuar como se o seu grupo parlamentar dispusesse de maioria. O orgulhosamente só tem tudo para correr mal. Dialogar não é abdicar das ideias próprias. Num contexto como o atual, dispor de capacidade adaptativa perante as circunstâncias não é defeito. Saber gerir as dependências, mais do que sobreviver, é uma maneira - mesmo que não a ideal – de defender os interesses do País. Visão diferente corresponde, provavelmente, a deitar ao lixo aquela que é uma pretensão apregoada tanto pelo primeiro-ministro como pelo Presidente da República eleito: a de que Portugal não vá a eleições nos próximos três anos e meio.
