Dos céus da Suécia ao Portugal dos Pequenitos
E amanhã? – pergunta o meu filho mais novo, mal eu fecho o livro com um sonoro clap!
– Amanhã vamos ver se o jardineiro consegue finalmente descansar – respondo-lhe.
Dali a pouco ajeito-lhe os lençóis, despeço-me e apago a luz do quarto.
Cinco meses, mais coisa menos coisa, depois de termos começado, vamos quase a meio do grosso volume. Niels Holgersson, mais conhecido por Polegarzinho, anda a visitar o jardim dos prazeres e o velho guardião do jardim resmunga, cada vez mais desesperado, que todos podem descansar menos ele.
O meu filho do meio, lá de cima do beliche, diz que talvez as personagens de que ele fala – os tais que têm direito ao descanso, ao contrário dele – sejam as que estão retratadas nos quadros que o Polegarzinho vai encontrando pendurados nas paredes dos edifícios. Acho que é capaz de ter razão.
Tudo isto começou quase como um desafio. Teríamos coragem para nos abalançarmos ao mais grosso dos livros infantis? 700 páginas não é brincadeira nenhuma e, tendo em conta que nem sempre há tempo ou disponibilidade para lermos a história, esta será uma empreitada quase para mil e uma noites.
Mas espero, no final, ter demonstrado que com alguma paciência e dedicação conseguimos chegar longe. E se eles, em pequenos, virem que fomos capazes de ler um livro de 700 páginas, talvez em adultos, quem sabe, não se sintam intimidados nem mesmo por um grande calhamaço...
A história de A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia remonta ao início do século passado, quando Selma Lagerlöf foi desafiada a escrever um livro através do qual as crianças das escolas primárias suecas pudessem ficar a conhecer a história e geografia do seu país. Um projeto de sabor nacionalista, com o seu quê, diria eu, de Estado Novo em versão escandinava.
Lagerlöf imaginou um rapazinho mal comportado que é transformado em duende (Polegarzinho) e que viaja pela Suécia às costas de um ganso. Lá de cima, vê os rios e as montanhas; as florestas e os campos cultivados; os pântanos e os lagos; mas também quintas, igrejas e cidades. Lá em baixo, quando param para descansar, sucedem-se aventuras que vão expondo o conflito entre o homem e a natureza.
Paradigma do romance ecológico (se é que essa categoria existe), o livro saiu em dois volumes, o primeiro em 1906 e o segundo em 1907. Foi um sucesso imediato não apenas na Suécia como em toda a Europa e a autora recebeu o Prémio Nobel em 1909.
Nas páginas que lemos por estes dias, o Polegarzinho anda a passear pelo jardim dos prazeres – mas, como vimos, esse é um jardim construído, onde há palácios, castelos e igrejas. «Apesar de o jardim ser belíssimo, com todas as suas flores e espelhos de água serpenteantes, o rapaz retirou ainda mais prazer de todos os coretos e casinhas de brincar», leio na página 331. «Não eram verdadeiras casas. Eram, de facto, tão pequenas que pareciam ter sido construídas para pessoas do seu tamanho; no entanto, eram inacreditavelmente bonitas e aprumadas. Havia casinhas de todos os géneros que se pudesse imaginar: algumas assemelhavam-se a castelos com torres e diversas alas, outras pareciam igrejas e outras ainda moinhos ou casebres de camponeses».
Um projeto nacionalista para dar a conhecer as diferentes regiões de um país e «casinhas de todos os géneros» em miniatura. Faz lembrar alguma coisa?
A primeira tradução portuguesa de A Viagem de Nils Holgersson data de 1936. A primeira pedra do Portugal dos Pequenitos foi lançada em 1938. Um parque-jardim com modelos de casas típicas das diferentes regiões, concebido como «extensão pedagógica e lúdica» de uma creche. «Tudo numa escala apropriada ao entretimento do visitante mais pequeno», refere o site da instituição de Coimbra. Terá o doutor Bissaya Barreto lido o romance de Lagerlöf ou trata-se apenas de uma enorme coincidência?
