Diplomacia da nostalgia: o recorrente erro europeu de leitura da América
Em abril de 1951, o analista eleitoral Samuel Lubell publicou na Harper’s Magazine um artigo que as diplomacias europeias deviam reler: ‘Who Votes Isolationist and Why’. Batendo à porta de eleitores, condado a condado, concluiu que o isolacionismo americano tinha raízes étnicas e emocionais. Os distritos que mais resistiram à entrada na guerra eram os do Midwest de ascendência alemã e escandinava. A hesitação de 1940-41 era também demografia eleitoral, isto é, democracia a funcionar. Roosevelt tinha de ler o mapa eleitoral ao mesmo tempo que os telegramas de Londres.
Em 2011, a convite do Departamento de Estado, visitei o Arkansas e descobri até que ponto economias locais, do peixe-gato ao arroz, dependiam de mercados externos e chegavam, por essa via, ao Congresso e à política externa. Percebi ali, mais do que em Washington, uma regra elementar: compreender a política externa americana exige começar pelo mapa económico e eleitoral de cada estado.
Vem isto a propósito do debate europeu sobre o «abandono americano». A indignação dominante trata a viragem de Washington como traição à tradição transatlântica ou capricho do líder de turno; e a estratégia europeia resume-se, demasiadas vezes, a esperar que passe, evitando irritar a Casa Branca, sem sequer mostrar liderança aos próprios europeus perante humilhações recorrentes. Persiste a convicção de que existe uma América atlântica à espera de regressar à normalidade. Essa normalidade talvez já não exista.
A viragem antecede Trump e provavelmente sobreviver-lhe-á. Em outubro de 2011, Hillary Clinton publicou na........
