O azul dos olhos de Tolstói
Há um pormenor sobre o autor de Guerra e Paz (1869) e de Anna Karenina (1877) que porventura surpreenderá, tendo em conta a época em que viveu (1828-1910): Lev Tolstói foi fotografado a cores. A surpresa vem do facto de tendermos a situar a fotografia colorida num período mais tardio. A imagem da esquerda mostra o registo que Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorsky captou do escritor, em 1908 – com tal detalhe que até o azul profundo dos seus olhos se distingue.
Prokudin-Gorsky (1863-1944), na imagem da direita, foi um químico e fotógrafo russo que estudou no Instituto Tecnológico de São Petersburgo, onde foi aluno de Dmitri Mendeleev, o criador da Tabela Periódica. Mais tarde, em 1902, deslocou-se a Berlim para aprender fotografia a cores com Adolf Miethe (1862-1927), professor de fotoquímica e um dos pioneiros naquele domínio. O princípio das três cores em que assentava a técnica fora, porém, proposto em 1855 pelo físico e matemático escocês James Clerk Maxwell (1831-1879).
O processo consistia em tirar três fotografias a preto e branco do mesmo enquadramento, mantendo a câmara imóvel e procurando que nada na cena se movesse, usando sucessivamente filtros vermelho, verde e azul. Cada imagem registava a intensidade da luz que passava por esse filtro: a exposição com o filtro vermelho, por exemplo, guardava a informação correspondente ao vermelho em cada zona da cena. De seguida, faziam-se positivos transparentes dessas três fotografias, os quais eram projetados num ecrã com três projetores, cada um equipado com um filtro da mesma cor. Quando as três projeções eram rigorosamente alinhadas e sobrepostas, as cores da cena fotografada reapareciam por mistura aditiva – isto é, pela soma da luz vermelha, verde e azul.
Em 1861, durante uma palestra sobre teoria da cor na Royal Institution, Maxwell, com a colaboração do fotógrafo e inventor Thomas Sutton (c.1819-1875), demonstrou o princípio com uma fita de tartã multicolorida; o sucesso da experiência foi, contudo, apenas parcial, por os materiais fotográficos usados serem pouco sensíveis ao verde e praticamente insensíveis ao vermelho.
O trabalho fotográfico de Prokudin-Gorsky – assim como as suas publicações e palestras com projeção de diapositivos, apresentadas a cientistas e fotógrafos na Rússia, na Alemanha e em França – granjeou-lhe amplo reconhecimento. Em 1906, foi eleito presidente da secção de fotografia da Sociedade Tecnológica Imperial Russa e assumiu a direção editorial da principal revista russa de fotografia, a Fotograf-Liubitel.
Nada, porém, lhe trouxe maior notoriedade do que o retrato a cores de Tolstói, que circulou em várias publicações, em postais e em ampliações de grande formato. Prokudin-Gorsky apresentava as suas imagens sobretudo através de projeções, mas os negativos obtidos com filtros de cada uma das três cores podiam também servir de base a processos de impressão – como a fotolitografia –, permitindo que algumas fotografias fossem reproduzidas em papel.
A fama dessa fotografia – e de outras anteriores, de paisagens e monumentos russos – valeu-lhe convites para apresentar o seu trabalho ao grão-duque Miguel Alexandrovich e à imperatriz-viúva Maria Feodorovna, em 1908, e ao czar Nicolau II e à sua família, em 1909. O czar ficou de tal modo impressionado que incumbiu Prokudin-Gorsky de documentar o império a cores. Para o efeito, Nicolau II disponibilizou-lhe um laboratório fotográfico instalado num vagão de comboio, que lhe permitiu percorrer o país, entre 1909 e 1915, e realizar milhares de registos.
Depois da Revolução de Outubro, ainda realizou viagens fotográficas, mas, em 1922, fixou-se com a família em Paris, onde montou um estúdio. Já na década de 1930, continuou a dar palestras e a mostrar as suas imagens da Rússia a jovens emigrados russos em França. Morreu a 27 de setembro de 1944, um mês após a Libertação de Paris.
Embora alguns dos seus negativos se tenham perdido, a maioria acabou por integrar o acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. A partir de 2000, os negativos foram digitalizados e os três registos cromáticos de cada imagem combinados digitalmente, permitindo obter centenas de fotografias de elevada qualidade. Cem anos depois, uma verdadeira ressurreição, a cores, da pátria de Tolstói.
