Trump e o estranho caso dos conservadorismos
Na primavera de 2021, um post de um blogue pouco lido, assinado por um pseudónimo, começou a circular entre um pequeno círculo de assessores e financiadores republicanos na direita americana. O seu autor, escrevendo como Mencius Moldbug, passara os anos 2000 a defender que a própria democracia era o problema, que os Estados Unidos seriam melhor governados como uma empresa, com um CEO-monarca responsável perante acionistas em vez de eleitores. Catorze anos depois, o verdadeiro autor, Curtis Yarvin, já não era um excêntrico obscuro. Era lido, discutido e, nalguns círculos, admirado discretamente por pessoas próximas da administração que tomava posse. J.D. Vance falara dele com curiosidade. Peter Thiel, que financiara a candidatura de Vance ao Senado, andava à volta de ideias semelhantes havia mais de uma década.
Este tipo de acontecimentos levou algumas pessoas a considerar que o trumpismo, pelas figuras que o defendiam, representa algo genuinamente novo na política americana, uma rutura com o conservadorismo tal como existira durante sessenta anos, substituído por algo substancialmente novo e radical, menos ligado às velhas certezas do governo limitado e da liberdade de mercado. Essa leitura está errada, ou pelo menos incompleta. O que Trump fez não foi inventar um novo conservadorismo, mas coletar várias versões dele, algumas até então aparentemente hostis entre si.
O conservadorismo americano sempre teve várias expressões e divergentes, e não perceber essa evidência é a razão pela qual tanto comentário sobre a ascensão de Trump continua a recorrer à palavra "inédito".
O sociólogo alemão Karl Mannheim, escrevendo no início do século XX, traçou uma distinção que ainda organiza melhor o campo do que a maior parte da opinião contemporânea: tradicionalismo significa o apego instintivo e muitas vezes irrefletido a modos de vida antigos, e conservadorismo propriamente dito expressa uma resposta ideológica consciente ao facto da mudança histórica. Um conservador, neste sentido, aceita que a modernidade aconteceu e tenta travá-la, geri-la ou readaptá-la em direção à continuidade. Um reacionário rejeita a própria premissa e quer voltar atrás, a uma ordem que existiu uma vez ou, mais frequentemente, que nunca existiu bem assim mas funciona como mito utilizável.
Quase todas as correntes da direita americana podem ser ordenadas ao longo deste eixo, e essa ordenação importa, porque as correntes não concordam entre si em quase mais nada.
Comecemos por Barry Goldwater: nele está muito do que será o impacto de Trump, mas sem o sucesso político e mediático deste. Em 1960 L. Brent Bozell Jr. escreveu, em nome de Goldwater, "The Conscience of a Conservative", e o livro tornou-se o texto fundador do movimento conservador moderno. Quatro anos depois, Goldwater derrotou o candidato do establishment do seu próprio partido, Nelson Rockefeller, nas primárias, ao apresentar-se como o candidato de rutura interna contra a sua própria estrutura partidária, um modelo que voltaria a surgir, quase inalterado, no Tea Party e mais tarde na primeira campanha de Trump. Goldwater foi um dos apenas seis senadores republicanos a votar contra a Civil........
