‘Regime change’, ‘regime alteration’ e a sombra dos Vulcões
Ainda não tínhamos entrado no terceiro mês de 2026 e Donald Trump já tinha decapitado o segundo de dois regimes vincadamente anti-americanos. Maduro, preso a aguardar julgamento em território dos EUA, e Ali Khamenei, o aiatola que se juntou a outras figuras sanguinárias e traidoras do seu próprio povo nos mais baixos círculos reservados por Dante no seu Inferno.
Mas as intervenções externas americanas, e particularmente as intervenções no Médio Oriente, carregam consigo um peso histórico que não pode, nem deve, ser ignorado. A sombra do fracasso no Iraque continua a pairar sobre Washington e, sendo a comparação irresistível, é necessário dar um passo atrás para conseguir ver de uma forma mais abrangente o que está em jogo. Primeiro, importa entender, ainda que de forma resumida, a filosofia americana de projeção de poder no estrangeiro. A visão de um império americano – um império benevolente, diga-se – incumbido de uma missão histórica e civilizacional de libertar os povos deste mundo era uma abordagem tipicamente liberal (no sentido americano do termo) – o Presidente Woodrow Wilson foi o seu expoente máximo –, com os conservadores associados a uma abordagem mais circunscrita às fronteiras nacionais e alargando-se, no máximo, ao hemisfério ocidental.
A chegada de Ronald Reagan à Casa Branca veio romper com esta ortodoxia. A questão das Filipinas em meados da década de 1980 abriu o debate no seio conservador sobre se os Estados Unidos deveriam promover estritamente os seus interesses – que, num cenário de Guerra Fria, se encontraram não poucas vezes em contradição com os interesses da evangelização democrática – ou se deviam ser missionários. E foi a intervenção no Panamá em 1989 que marcou o início das intervenções externas em nome dos valores liberais no pós-guerra fria, já com a ameaça do expansionismo comunista mais ou menos contida. Neste sentido, e como explicou James Mann (The Rise of The Vulcans, p. 180), «o Panamá foi o precursor do esforço americano posterior contra Saddam Hussein no Iraque». Nas páginas seguintes, Mann identifica corretamente que o final da Guerra Fria foi um ponto de inflexão porque, sob as condições certas – nomeadamente o uso de força avassaladora para atingir objetivos estreitamente definidos –, «os Estados Unidos estavam, na verdade, a recuperar o apetite por guerras que poderiam vencer». Escusado será dizer que as feridas do Vietname ainda estavam no início de um doloroso processo de cicatrização.
Estas ‘condições certas’ constituíam o essencial da estratégia que viria a ficar conhecida como Doutrina Powell. Uma estratégia que é, pelo menos quando vista à luz da Guerra do Golfo, de facto, semelhante à doutrina que Trump parece estar determinado em seguir: entrar com força esmagadora, vencer em pouco tempo e, extremamente importante, sair o mais rápido possível. É uma abordagem que procura o melhor dos dois mundos: por um lado, utilizar o imenso poderio militar americano para enfraquecer, ou alterar, regimes que são considerados ameaças vitais aos interesses americanos; por outro, evitar uma presença duradoura – as famosas ‘boots on the ground’ – que aportaria um custo humano e monetário significativo para os americanos e para as populações do Médio Oriente. «Aprendemos uma lição no Panamá», escreveu Powell na sua autobiografia (My American Journey): «Entrar com tudo e terminar rapidamente. Não podíamos submeter os Estados Unidos a outro Vietname». O corolário Trump à Doutrina Powell poderá ser ajustado com a substituição de ‘Vietname’, um trauma da política externa americana nas últimas décadas do século XX, por ‘Iraque’, o trauma presente do uso da força no estrangeiro.
Todavia, e apesar da importância da história como grande instrumento para iluminar o presente, a comparação não é assim tão linear. E a grande diferença entre a abordagem de Powell – e de outros neoconservadores como Paul Wolfowitz e Dick Cheney – durante a Guerra do Golfo e esta incursão da administração Trump no Irão está precisamente na utilização da expressão ‘regime change’. Enquanto os primeiros não a procuraram na Guerra do Golfo, mesmo estando em cima da mesa entrar em Bagdade para depor Hussein, Trump já não a esconde. Isto porque, como explicou Wolfowitz num ensaio escrito em 1997, «um novo regime [no Iraque] tornar-se-ia a responsabilidade dos Estados Unidos», o que «poderia ter levado os Estados Unidos a uma ocupação mais ou menos permanente de um país que não conseguia governar-se a si próprio, mas onde o domínio de um ocupante estrangeiro seria cada vez mais ressentido». Este acabaria por ser o fatídico destino da intervenção americana no Iraque no início da década de 2000 da qual tanto Powell, já como secretário de Estado, quanto Wolfowitz, enquanto vice-secretário da Defesa, foram figuras centrais.
O facto de os fantasmas desta debacle continuarem bem presentes na consciência americana faz com que a abordagem de Trump, primeiro na Venezuela e agora no Irão, tenha uma particularidade: a sua definição de ‘regime change’ parece escapar à tradicional acepção do termo. Como escreve o historiador escocês Niall Ferguson no seu mais recente ensaio para o The Free Press (Khamenei Joins Saddam in Hell, but Iran 2026 Is Not Iraq 2003), o que os EUA estão a fazer na Venezuela e no Irão – e é bastante provável que o façam também brevemente em Cuba – é, através da decapitação dos líderes, uma operação de ‘regime alteration’. Qual é a diferença? À primeira vista, pode parecer nada mais que uma manobra semântica para tentar justificar uma recaída de uma administração que sempre pugnou pela abstinência de neoconservadorismo. Mas, ao olhar mais de perto, é possível entender a diferença nos meios de que Ferguson fala, independentemente de os fins serem inegavelmente semelhantes. Explica o historiador: «regime change não é regime alteration» porque esta última «exclui o envio de forças terrestres americanas, excepto forças especiais». Mais: «requer um curto prazo para operações militares» e «decepcionará aqueles que querem acelerar a transição do Irão (e da Venezuela) para a democracia». Ao contrário do que George W. Bush fez no Iraque, o objetivo de Trump «não é invadir o Irão e conferir, muito menos impor, a liberdade aos iranianos». «É», isso sim, «decapitar a estrutura política da República Islâmica e deixar que os iranianos conquistem a sua liberdade».
Nestes termos, as diferenças entre a abordagem de Trump e a de Bush (filho) parecem ficar mais claras. Contudo, este último ponto – o da conquista da liberdade pela mão do povo iraniano – é todo outro problema que merece a devida atenção. Naturalmente, a decapitação do regime deixa o caminho mais livre, mas não deixa, de todo, de ser um caminho extremamente tortuoso. O herdeiro do Xá deposto pela Revolução de 1979, Reza Pahlavi, exilado desde então, tem-se demonstrado disponível para liderar uma putativa transição, mas, e independentemente de gozar de um apoio considerável tanto no Irão quanto na diáspora, não parece ser algo, de momento, concretizável. Aliás, de momento é difícil oferecer qualquer certeza sem cair no sempre perigoso, porque pouco abonatório da verdade, buraco da especulação que será sempre e inevitavelmente decorrente de um ou outro preconceito ideológico. Não sabemos quem será, ou sequer se haverá, a Delcy Rodríguez de Teerão. Dadas as circunstâncias radicalmente diferentes entre os dois casos é, no mínimo, improvável.
A imprevisibilidade resultante do extenso arsenal de variáveis que pautam este conflito permite que nos socorramos de uma das lições de Churchill, ele também, no seu tempo, considerado um falcão belicista: «Nunca, nunca, nunca acreditem que alguma guerra será fácil e tranquila» porque o «estadista que cede ao fervor da guerra deve perceber que, uma vez dado o sinal, ele não é mais o mestre da política, mas o escravo de eventos imprevisíveis e incontroláveis». Não apenas o estadista, podemos acrescentar, mas, neste momento, todos nós. Resta-nos pouco mais que esperar por mais desenvolvimentos para perceber se o cessar-fogo chegará no momento certo – como não chegou na Guerra do Golfo, onde um cessar-fogo demasiado prematuro impediu que a oposição interna a Saddam Hussein ganhasse tempo – para que os iranianos possam, finalmente, voltar a respirar o ar da liberdade.
