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Em defesa do recreio

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17.02.2026

Embora práticas como reguadas e orelhas de burro tenham caído em desuso, a lógica punitiva persiste em muitas escolas, que continuam a usar o recreio, ou a ausência dele durante uma manhã, um dia ou até uma semana inteira, como forma de castigo.

Muitas crianças são um turbilhão de ação, movimento, pensamentos e emoções – algo natural do seu desenvolvimento – que nem sempre expressam da forma mais adequada. Os responsáveis, com a melhor das intenções, tentam discipliná-las e orientá-las. Mas educar não é uma tarefa fácil ou linear. Por isso, com maior ou menor sensibilidade, tempo e recursos, vai-se recorrendo a este ou àquele método. Um dos mais evidentes e milenares é privar o “infrator” daquilo de que mais gosta, neste caso, o recreio, ou seja, brincar.

Em muitas escolas, este espaço continua a ser entendido como um privilégio ou como um momento vazio, passível de ser retirado quando se considera que as crianças não são merecedoras dele. Como se fosse o equivalente a dizer que não vão comer uma guloseima ao lanche porque se portaram mal.

Lamento profundamente a forma como o recreio, apesar de ser um espaço de aprendizagem complementar e tão merecedor de reconhecimento como a sala de aula, é muitas vezes desvalorizado e usado como um motivo de chantagem para os meninos que se portam mal: “Atiraste uma borracha ao teu amigo? Estiveste a falar durante a aula? Então ficas sem recreio!” 

Como se fosse justo retirar o recreio a alguém.

Tal como alguns castigos antigos nos provocam indignação, tenho esperança de que um dia se torne impensável retirar o recreio aos mais pequenos.

É um contrassenso que as mesmas escolas que ensinam a Convenção sobre os Direitos das Crianças na disciplina de Estudo do Meio lhes retirem esse espaço fundamental. O recreio não é um privilégio. É um direito. Também ninguém se lembra de dizer: “hoje portaste-te muito mal, ficas sem almoço”.

O recreio não serve só para “passar o tempo”. É um espaço de aprendizagem, de desenvolvimento emocional e social, e de bem-estar. Permite integrar experiências, libertar o corpo da postura estática exigida na sala de aula – algo que contraria a própria natureza das crianças – e ensaiar relações. É um lugar de liberdade, para desanuviar, brincar e, simplesmente, ser criança.

Ficar sentado durante o recreio retira à criança a oportunidade de se expandir depois de longos períodos de concentração e imobilidade criando um conflito difícil de resolver. Ao ser privada do recreio, o espaço em que recarregaria baterias para um novo tempo em sala de aula, a criança fica física e psiquicamente impedida de se libertar.

Regressará, muito provavelmente, ainda mais irrequieta depois de passar o intervalo sentada num banco, a ver os colegas a brincar. E, ao mesmo tempo, terá de fazer um esforço acrescido para não repetir o castigo, tentando controlar-se e esforçando-se, ainda mais, para conseguir estar atenta e sossegada.

As crianças não precisam de menos recreio, quando muito, precisam de mais. Mais tempo para correr, brincar, para se relacionarem, para libertarem o corpo e organizar as emoções. Talvez, se observássemos com atenção o que acontece no recreio, conseguíssemos compreender melhor o que se passa na sala de aula.


© SOL