Quando a realidade insiste em contrariar as ‘perceções’
A expressão tornou-se quase um mantra no comentário público. A operação especial de prevenção criminal (doravante OEPC) realizada pela PSP naquela zona da Mouraria foi apresentada por alguns comentadores (e “tudólogos”) como um exercício desproporcionado, alimentado por medos difusos ou por uma leitura excessiva da realidade criminal.
A tese era simples: não havia propriamente um problema. Havia apenas perceções, e essas perceções não são motivo que justifiquem medidas policiais daquela envergadura.
A realidade, porém, tem uma característica particularmente inconveniente: raramente se submete à retórica.
Em fevereiro de 2026, um tiroteio na Rua do Benformoso deixou três homens feridos, um deles em estado grave, depois de disparos efetuados a partir de uma viatura no coração de Lisboa. Não foi, aliás, um episódio isolado.
Em fevereiro de 2025, um homem foi esfaqueado na mesma rua com múltiplos golpes no rosto, braços e tronco, num cenário descrito pelas autoridades como particularmente violento e com abundante derramamento de sangue.
Poucos meses depois, em junho do mesmo ano, outro homem voltou a ser esfaqueado na Rua do Benformoso, desta vez com ferimentos no pescoço e nas costas.
Podemos naturalmente discutir as causas sociais, económicas ou urbanísticas destes fenómenos. Devemos, aliás, fazê-lo, é esse o nosso dever, sobretudo de quem tem, num determinado momento, funções públicas de responsabilidade [direta].
Mas talvez seja legítimo colocar uma pergunta prévia: quando tiros e facadas ocorrem repetidamente no mesmo espaço urbano, estamos perante perceções ou perante um problema real? Será que mascarar realidades ou fenómenos é o........
