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Portugal na Guerra Global

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05.03.2026

Há datas que os livros registam como o início das guerras. E há momentos que, silenciosamente, mudam a arquitetura do poder internacional.

A guerra global em que já vivemos começou no sistema financeiro.

Considero, por isso, que o verdadeiro arranque da actual guerra global ocorreu a 28 de Fevereiro de 2022, com o congelamento das reservas soberanas da Rússia. Foi o momento em que o sistema financeiro internacional deixou definitivamente de ser neutro e passou a ser arma estratégica.

Quando centenas de milhares de milhões de dólares de um banco central do G20 são congelados por decisão política coordenada, a ordem monetária internacional muda de natureza. O dólar e o euro deixaram de ser apenas moedas de reserva, tornando-se instrumentos explícitos de poder geopolítico.

Foi o fim da neutralidade financeira como pilar silencioso da ordem internacional.

Nesse dia a guerra deixou de ser isolada e regional.

Até então poderíamos discutir 2014 (Crimeia), ou mesmo 2008 (a crise financeira que fragilizou o Ocidente e abriu espaço ao revisionismo estratégico russo e à ascensão chinesa). Poderíamos recuar a 2001 (11 de Setembro), que inaugurou a era das guerras permanentes. Mas, para mim, 2022 foi diferente. Foi a integração plena da arquitetura monetária e financeira global no conflito.

Quando comércio, energia, tecnologia e sistemas de pagamento se transformam em armas, a guerra deixa de ser apenas militar. Passa a ser sistémica.

Tal como em 1914 e em 1939, o que começou como conflito localizado evolui para uma reconfiguração estrutural de blocos. Actualmente assistimos a:

- Alinhamento estratégico consolidado entre Rússia e China;- Indo-Pacífico transformado no epicentro industrial e tecnológico do século XXI;- Médio Oriente novamente inflamado;- Cadeias de valor militarizadas;- Regresso da centralidade do Atlântico.

Esta guerra não será curta. Não será um episódio delimitado no tempo. Será um ciclo longo de competição estratégica que se estenderá, muito provavelmente, pela próxima década.

Face a esta realidade, Portugal não pode continuar a observar este cenário como mero figurante periférico. A nossa posição atlântica, os Açores, as rotas marítimas, os cabos submarinos, a interligação energética e a projecção lusófona colocam Portugal no centro de uma nova geometria estratégica. E é neste ponto que a questão da extensão da plataforma continental portuguesa deixa de ser um dossiê técnico e passa a ser uma prioridade Nacional.

O processo em curso nas Nações Unidas, ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), consolida juridicamente direitos soberanos irrevogáveis ao abrigo do direito internacional sobre uma das maiores plataformas continentais do mundo. Não estamos a falar de retórica marítima. Estamos a falar de jurisdição sobre recursos minerais estratégicos, potencial energético, biodiversidade, posicionamento geopolítico e controlo de espaço submarino numa era em que o mar voltou a ser teatro central da competição entre potências.

A extensão da plataforma continental não é apenas uma questão científica. É um acto jurídico de afirmação soberana. É o reforço da posição internacional de Portugal como potência marítima atlântica. É a possibilidade de garantir que as próximas gerações herdam um espaço estratégico consolidado e protegido.

Num mundo onde o mar volta a ser determinante (basta olhar para o Mar Negro, o Mar do Sul da China ou o Mar Vermelho), Portugal não pode continuar a tratar este processo como secundário. A sua ratificação plena e consolidação internacional devem ser prioridade nacional absoluta.

Defendo, por isso, a criação de uma estrutura política exclusivamente dedicada a este objectivo (um Ministro do Mar com mandato específico para a plataforma continental, ou um Embaixador Especial com autoridade transversal). Não se trata de criar mais burocracia. Trata-se de concentrar foco estratégico numa decisão que moldará o país durante o século XXI.

Se a guerra é sistémica, a resposta portuguesa tem de ser sistémica.

Precisamos de reforçar vigilância marítima, proteger infraestruturas críticas (cabos submarinos, energia offshore), investir em defesa e inteligência estratégica, e articular a nossa diplomacia atlântica com a Europa e, em especial, a lusofonia. Precisamos de deixar de pensar pequeno.

É também neste contexto que importa reconhecer quem, com todas as imperfeições próprias de qualquer liderança, compreendeu a necessidade de projectar Portugal internacionalmente.

O actual e cessante Presidente da República foi um Presidente genuíno. Num tempo dominado por figuras formatadas e discursos calculados, foi uma liderança com identidade própria. Elevou Portugal em múltiplos fóruns internacionais (recorde-se o discurso no Parlamento Europeu), reforçou a centralidade da lusofonia e manteve abertas pontes diplomáticas num período de fragmentação global.

Não será por acaso que no dia 5 de Março presidirá ao Conselho de Ministros dedicado à lusofonia e à geopolítica. O simbolismo é evidente. Compreender o mundo para posicionar Portugal.

A década que agora se abre exigirá maturidade política, coragem estratégica e ambição nacional. O Atlântico deixará definitivamente de ser periférico. O mar será cada vez mais central. A lusofonia poderá ser uma das nossas maiores alavancas diplomáticas e políticas.

Mas isso exige coesão interna. Exige visão. Exige que deixemos de agir como país pequeno quando temos dimensão marítima de potência média.

Ao Presidente que encerra este ciclo, deixo uma palavra simples: até já. O país continuará a precisar de quem acredita que Portugal deve estar no centro das decisões e não à margem delas.

A história acelera.O mar continua a ser nosso.A questão é saber se estaremos à altura de Portugal.


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