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A terra agrícola como pilar estratégico para o futuro das pensões ibéricas

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17.03.2026

Escrevo este texto com a convicção crescente de que Portugal e Espanha estão a ignorar um dos seus maiores ativos estratégicos. Falo da terra agrícola — um recurso antigo, resiliente e subvalorizado — que, na minha opinião, pode e deve desempenhar um papel central no financiamento das pensões das próximas gerações.

Não se trata de uma ideia abstrata ou romântica: trata-se de uma proposta concreta, com números, escala e precedentes internacionais.

O problema estrutural das pensões ibéricas

A crise das pensões não é conjuntural. É estrutural.

A despesa anual com pensões em Portugal e Espanha já ultrapassa 14% do PIB, absorve mais de 40% da despesa pública e exige cerca de 270 mil milhões de euros por ano. A demografia joga totalmente contra esta realidade: menos contribuintes, mais beneficiários e maior longevidade. Até 2050, este passivo implícito poderá representar 50% do orçamento do Estado em ambos os países.

Durante décadas, limitámo-nos a ajustes paramétricos — idade da reforma, taxas de contribuição, fórmulas de cálculo — e a reforços orçamentais pontuais. Nada disto resolve o desequilíbrio estrutural. Continuamos presos a um modelo concebido na Europa de Bismarck e implementado na Península pelos regimes do século XX, que teve sentido nesse contexto histórico, mas que hoje se aproxima a passos acelerados de uma bancarrota anunciada.

É tempo de olhar para os recursos que temos — e não apenas para os que nos faltam.

Portugal e Espanha possuem 27 milhões de hectares de superfície agrícola. É um dos maiores stocks fundiários contínuos da Europa Ocidental. E, no entanto, este ativo permanece praticamente ausente do debate sobre as pensões. Na verdade, o próprio debate está pouco vivo porque não interessa ao curto-prazo das democracias contemporâneas.

A terra agrícola tem características raras como classe de ativos:

valorização consistente,

capacidade de gerar rendimentos recorrentes.

Nos últimos 30 anos, a terra agrícola valorizou-se:

6 vezes mais do que o ouro (padrão histórico de valor)

10 vezes mais do que as obrigações do Tesouro dos EUA (referência de rendimentos fixos)

2 vezes mais do que o índice S&P 500 (referência de rendimentos variáveis)

Poucos ativos combinam esta performance única com tanta estabilidade intertemporal.

Ao mesmo tempo, a Península mantém perto de 1,8 biliões de euros parados em depósitos bancários com rentabilidade quase nula, apesar de o setor bancário ibérico, sobretudo a banca espanhola, ter encerrado 2025 com resultados máximos históricos - e 9 biliões de euros concentrados em imobiliário urbano, sujeito a ciclos de bolha e correção. Não nos falta capital — falta-nos visão estratégica para o alocar.

Este capital, hoje subutilizado, poderia ser parcialmente redirecionado para ativos agrícolas, que historicamente apresentam retornos superiores e um perfil de risco controlado.

Um modelo misto de investimento institucional

Um fundo agrícola de pensões é um veículo de investimento institucional concebido para gerar rentabilidade a longo prazo para os seus depositários ou investidores. O seu funcionamento baseia-se na compra e exploração de terras agrícolas, com reinvestimento significativo do EBITDA para aumentar progressivamente a área e a produtividade das explorações. Este modelo assume um horizonte de investimento prolongado,........

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