O valor do património familiar no setor agrícola ibérico: rumo a um modelo de tipo endowment
Há uma verdade persistente no mundo rural ibérico: a terra nunca foi apenas um ativo produtivo. É memória, continuidade e vínculo entre gerações. Mas esse pacto intergeracional está hoje sob grande pressão.
Em Portugal e em Espanha, cerca de 85% das explorações agrícolas continuam a ser familiares. Apesar de a agricultura representar apenas 2% a 3% do PIB, o complexo agroalimentar representa 10% a 15% da nossa economia. Para uma grande parte do setor, o desafio estrutural não está na produtividade nem na tecnologia: está na sucessão.
A idade média dos agricultores ultrapassa hoje os 60 anos e apenas cerca de 6% têm menos de 40.
Mais de 60% da superfície agrícola útil mudará de mãos nos próximos 15 anos na Península.
Em Portugal, 90% das transmissões de terra nos últimos 30 anos foram sucessórias, frequentemente acompanhadas por fragmentação da unidade produtiva.
Espanha perdeu, desde 1990, cerca de 30% das explorações agrícolas e Portugal mais de 40%.
A terra permanece, mas desaparece a unidade económica que lhe dá escala e continuidade. E, ainda assim, a agricultura familiar ibérica resistiu a crises, mudanças políticas, revoluções tecnológicas e transformações demográficas profundas ao longo de séculos. Resistiu porque opera numa lógica que o mercado financeiro mais dificilmente compreende: a lógica do respeito pelo longo prazo.
Francisco García Paramés — figura de referência do investimento value a longo prazo — tem sublinhado a vantagem estrutural das empresas familiares bem geridas, assentes em disciplina de capital, continuidade e alinhamento entre propriedade e gestão. Na agricultura, essa lógica é ainda mais evidente: montados, olivais, vinhas, floresta ou tantos outros sistemas de regadio (e também de sequeiro) que exigem décadas de horizonte. Quem melhor conhece a agricultura não constrói ativos de ciclo curto — procura perpetuidade.
Mas há uma dimensão menos discutida e igualmente determinante: a dimensão humana e territorial. As empresas agrícolas familiares possuem uma forte sensibilidade social, não baseada em lógicas sindicais ou paternalistas, mas na construção de relações humanas duradouras com as pessoas que integram a terra e o território. São estruturas profundamente enraizadas no território, onde várias gerações vivem e crescem em torno da mesma terra. Essa ligação emocional e humana não é acessória — é um dos principais fatores de sustentabilidade e desempenho económico no longo prazo.
A profissionalização da agricultura é inevitável e desejável, mas não pode significar o afastamento da terra ou da sua dimensão intergeracional. Pelo contrário, deve reforçar essa continuidade. É neste contexto que o conceito de endowment ganha relevância.
Os grandes endowments institucionais baseiam‑se numa ideia simples: preservar capital ao longo de gerações, com disciplina de investimento e governação clara.
Jaime Alonso‑Stuyck, gestor do endowment do IESE Business School da Universidade de Navarra, defende que, sem estruturas que protejam a unidade do património familiar, perde‑se escala, eficiência e capacidade de investimento. A visão que propõe — que, no seu caso, se aplica aos mercados financeiros na ótica da preservação (perpétua) do valor do capital de instituições académicas — tem mais paralelismos com a agricultura do que possa parecer. A gíria muda, mas as ideias de fundo são as mesmas.
A agricultura familiar,........
