O único dia em que as crianças portuguesas puderam brincar
No ventre antagónico destas sucessivas tempestades, só vi algo a nascer muito bonito e aconteceu na trégua da intempérie neste sábado último de janeiro. Muitas zonas do país ficaram sem cobertura de rede (Internet) o que, primeiramente, deixou as populações muito atordoadas, como a história do pinguim que anda a circular nas redes sociais, em contra-volta. Sobre este pinguim: as pessoas andam muito admiradas, mas há uma simples explicação da Psicologia (comportamento animal) para o que estão a observar no pinguim que decidiu seguir sozinho.
Voltando ao comportamento humano: após estarmos sem rede, nem TV, algo emergia e parecia uma dávida: parecia que as pessoas se acostumavam e tranquilizavam – até diminuiu a ansiedade que estas tempestades estão a causar em todos nós – só nesse dia. E somente foi um dia em que reparei que as crianças começaram a brincar na rua, sem telemóveis e com os pais por perto, igualmente estes sem ecrãs ocupados. Sem conversas desenfreadas no whatsapp, sem scroll voyeur do instagram dos amigos e inimigos, sem email, sem nada que seja realmente necessário. O sol estava muito bonito, pelo menos em Lisboa, perguntei à minha irmã se em Aveiro também estaria assim. Senti-me feliz pelas crianças que vi a brincar umas com as outras, sobretudo vizinhas, na rua, mesmo a chapinhar (algo sensorial que é tão útil, apesar da sujidade associada). Mas, notei também que a brincadeira - que é tão importante para o desenvolvimento nativo da infância - é algo que nem se aprende, surge de forma natural.
Nas ruas da cidade, as crianças encontram formas de brincar com bondade, agarrando coisas do chão para fazerem de bolas ou de objetos de análise. Não me parecia que fosse algo habitual para elas, não estas crianças totalmente vítimas do trauma urbano. Vi que a criança voltou a ser criança sem telemóvel e que mães e pais voltaram a sê-lo na sua plenitude.
Sinceramente, no recente dia 31 de janeiro parecia que tudo tinha mudado para que o ser humano pudesse pedir perdão por estar absorto em redes sociais e no trabalho excessivo, sem prestar atenção à natureza quando se faz bonita para ser o berço de que a infância precisa. E os seus pais e entre eles o amor que deve ser cultivado através do intervalo de tempo, de pausa. Nem o frio sendo impeditivo. Quando o dia estava a fechar, pelas 18h, mal sabiam estas crianças que tinha sido o único dia que tiveram para poderem brincar no meio do inverno e da geada.
