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Hoje, ainda sob o mesmo hijab, ela e o absoluto segredo: a mentira feminista no Irão, as mulheres mortas

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26.03.2026

Na voz dela, debaixo de um hijab que sempre usa, pediu-me para apagar a sua identidade e a gravação que fiz da entrevista, tal como têm sido ‘apagadas’ as mulheres, desde tenra idade, no abastado Irão e em países contíguos teocráticos. As redes sociais há duas semanas têm demonstrado um lado mentiroso do feminismo a nascer como um sol promissor no Irão, após a morte de Ali Khamenei. Mas, tudo piorou para as mulheres.

As mudanças que se auguram, não serão para já e D. Trump só dificultou e deturpou o conceito de liberdade naquele país. Não é opinião minha, é factual. Segundo a iraniana, que pede o anonimato sob pena de morte, intensificou-se ainda mais a repressão sobre a conduta e a indumentária das mulheres. Não se aplica ali “Sem rei, nem lei”, pelo contrário. Agora vestir o hijab (completamente cobrindo o rosto) é ainda mais obrigatório.

Quis saber mais sobre o que está no ventre do movimento “Woman, Life, Freedom”, sobretudo após a conhecida e trágica morte da ativista Amini. A entrevistada iraniana sabe, de perto, que é um movimento sólido muito defendido pelas mulheres (todas muito cultas, aliás o que define as persas neste país) e que proclama os valores da dignidade, liberdade e igualdade. Focando o género. Agora, esse movimento não tem menos ativistas, mas ainda mais vigiado que antes. Espoletou ainda mais violência, após a morte do mais recente (e ‘longo’) líder que vergou o país, a cultura e as mulheres às trevas. 

Portanto, nos últimos dias os conteúdos têm-nos mentido com vídeos em que iranianas ou outras solidárias retiram o hijab ou queimam bandeiras. Em trejeitos feministas. Isto, de facto, não está a acontecer. O reverso sim e é assustador. Basta protestar com uma simples bandeira pousada nas janelas um tiro é disparado. Os snipers estão atentos como falcões da herança de Khamenei.

Então como se pode instituir a paz feminista? A mulher com quem falei afirma que os canais mais profícuos têm sido redes informais de organização clandestina, sendo que mesmo assim há intercetação dessas comunicações online e muitas ativistas estão presas. Alguns dos seus corpos são devolvidos às famílias sem uma justificação. 

Como faço parte de ações científicas europeias sobre feminismo e estratégias de paz internacional, nem os principais investigadores da minha equipa conseguem responder à mesma questão: “como se pode…”.

Afinal como comunicam online, se a Internet é completamente restringida na maior parte das horas do dia? Eu própria para poder fazer esta conversa, verifiquei interrupções constantes e perda de imagem por causa dos bloqueios e vigilância do Irão. Via uma parede de tijolos na sua traseira, não era a sua casa, mas um sítio que ela decerto utiliza para estes eventos ou para se esconder. Ouvia-se gritos constantes ao fundo, senti que estava num teatro de guerra, dentro dele. Senti medo, imaginem ela. 

Se era a liberdade para ser começada, não é o que está a acontecer, não é verdade o que as redes sociais nos demonstram, no plano internacional. Hijabs no chão e o look feminino em destaque com os cabelos livres. Não.

Será essa ‘mentira’ estratégia geopolítica? Será que é preciso muito mais ‘Aminis’ até a aurora do feminismo concreto no Irão e em países fundamentalistas?

Não obtive resposta a isto, a rede caiu, a minha querida entrevistada iraniana desapareceu da imagem.


© Sapo