O amor na era do chip: traição, narcisismo, controlo e a angústia de ser substituível
A polémica e a ferida contemporânea
A recente polémica em torno de um suposto chip de controlo para parceiros amorosos — posteriormente revelado como campanha de sensibilização — expôs algo mais profundo do que uma estratégia de marketing provocatória. Expôs uma ferida contemporânea: a dificuldade crescente em tolerar a alteridade no amor.
A indignação colectiva foi imediata. “Como seria possível aceitar a ideia de implantar um dispositivo que permitisse vigiar, permanentemente, o Outro?” Todavia, a intensidade da reacção revela, precisamente, o ponto sensível: o desejo de eliminar a incerteza, nas relações.
O controlo já normalizado nas relações
A verdade desconfortável é que o controlo já está amplamente integrado na vida amorosa. A partilha de localização, o acesso irrestrito a telemóveis, a exigência de resposta imediata, a monitorização das redes sociais — práticas frequentemente legitimadas como prova de transparência — constituem formas subtis de vigilância mútua. O chip físico apenas dramatiza aquilo que, simbolicamente, já acontece.
Amor, angústia e narcisismo
Do ponto de vista psicanalítico, o amor nunca elimina a angústia. A maior parte das vezes até a aumenta, a espaços. Amar implica investir libido no Outro, mas também aceitar que o Outro permanece sujeito de desejo próprio. É aqui que a leitura de Freud se torna incontornável.
Em Sobre o Narcisismo (1914), Freud descreve como a escolha amorosa é, na sua grande parte, inconsciente, e pode seguir dois grandes eixos: a escolha analítica ou de apoio (baseada nas figuras de cuidado), e a escolha narcísica (amar aquilo que somos, fomos ou gostaríamos de ser, ou alguém que é uma extensão de si mesmo). Em ambos os casos, o amor está atravessado pela economia do narcisismo. O parceiro não é apenas um Outro — é também suporte da nossa própria imagem.
A traição como queda do Ideal do Eu
A traição atinge precisamente esse eixo. O que se rompe não é apenas a exclusividade sexual, ou afectiva. O que se estilhaça é a ilusão de centralidade narcísica. O sujeito traído não sofre apenas pela perda do Outro, mas pela queda do Ideal do Eu. A pergunta silenciosa é devastadora: “Se me traiu, então não fui suficiente.” A dor é menos moral e mais ontológica.
O chip como prótese narcísica
Neste sentido, o fantasma do controlo absoluto surge como tentativa de prevenção da humilhação narcísica. “Se eu puder saber tudo, nada me escapará. Se nada me escapar, não serei surpreendido!”. O chip funciona, assim, como prótese imaginária de segurança do Eu.
O desejo não se captura
Mas aqui surge o limite estrutural apontado por Lacan: o desejo é desejo do Outro. Não se deixa capturar por vigilância. Não se regula por dispositivos técnicos. O sujeito ama na medida em que reconhece que o Outro lhe escapa. Quando tenta capturá-lo, integralmente, desloca-se do campo do amor para o campo do domínio.
Lacan recordava que amar é “dar o que não se tem”. Isto significa que o amor implica falta, não posse. O desejo nasce da falta e mantém-se na diferença. Só conseguimos desejar, amar, porque “falta algo”. Ao tentar eliminar a falta através da vigilância permanente, elimina-se também a própria condição do desejo. Simplificando: “Se te tenho a toda a hora, não posso sentir-te a falta, não posso desejar-te”.
É neste ponto que o pensamento de André Green oferece uma leitura complementar e perturbadora. Green descreveu o narcisismo negativo como a tendência para reduzir o Outro à função de espelho do próprio Eu, esvaziando-o da sua alteridade. O controlo excessivo não é apenas medo de traição; é recusa da existência psíquica autónoma do parceiro. O Outro deixa de ser sujeito para se tornar extensão regulável. Há um aniquilamento da individualidade.
Controlo disfarçado de cuidado
Nesta medida, aquilo que socialmente se apresenta como “cuidado” pode, em certos casos, operar como defesa contra a angústia de separação. A exigência constante de localização, resposta imediata, acesso total, funciona como anestesia da incerteza. Mas é uma anestesia que, paradoxalmente, corrói o vínculo. Rebenta com o amor!
Amor, risco e vulnerabilidade
O amor implica risco. Implica vulnerabilidade. Implica confiar sem garantia. Implica aceitar que o Outro pode desejar fora de nós — e, ainda assim, escolher permanecer.
A cultura contemporânea, marcada pela hiperconectividade, oferece a ilusão de que tudo pode ser monitorizado. No entanto, quanto mais tentamos assegurar-nos contra a substituibilidade, mais revelamos o medo que a sustenta. O verdadeiro escândalo talvez não seja a ideia de um chip implantado. Talvez seja a constatação de que, progressivamente, fomos normalizando a intolerância à esfera privada, confundindo transparência com vigilância, e amor com controlo.
Fidelidade não programável
A Psicanálise recorda-nos que não existe dispositivo externo capaz de garantir fidelidade. O mesmo já tinha sido tentado, há seculos atrás, com o “cinto de castidade”. A fidelidade não nasce da supervisão; nasce da posição subjectiva de cada um face ao próprio desejo. E essa posição não é programável.
A pergunta que permanece
Num tempo em que a tecnologia promete reduzir a incerteza a dados rastreáveis, a pergunta permanece radicalmente humana: conseguimos amar sem tentar capturar?
O amor não é garantia. É risco. É vulnerabilidade. É “estar a mercê”. E é nesse risco — nessa aceitação da falta e da alteridade — que reside a sua dignidade.
