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Defender valores sem pedir desculpa

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19.02.2026

Sou conservador, cristão evangélico, marido e pai, e começo por dizê-lo sem rodeios porque acredito que as ideias ganham força quando têm rosto e convicção.

Escrevo num tempo em que a tradição é frequentemente caricaturada e a fé tratada como relíquia cultural, mas também num tempo em que muitos continuam a procurar raízes, sentido e estabilidade.

Aquilo que penso sobre a sociedade não nasce de teorias distantes, nasce da vida real, da fé que pratico e da certeza de que a família, a responsabilidade pessoal e a herança moral que recebemos não travam o futuro, dão-lhe direção.

Nos últimos dias assistimos a mais uma polémica carnavalesca onde famílias conservadoras e símbolos cristãos foram reduzidos a caricatura pública. Muitos disseram tratar-se apenas de humor, outros apelaram à liberdade artística como argumento final. Mas a história cultural ensina-nos que a sátira deixa de ser reflexão quando perde a capacidade de reconhecer a dignidade do outro. A crítica pode ser saudável, o desprezo nunca construiu sociedades mais livres.

Não é a primeira vez que valores tradicionais são apresentados como algo retrógrado. Há uma narrativa persistente que associa fé e família a atraso cultural, como se preservar raízes fosse incompatível com pensar o presente. No entanto, basta olhar para a história europeia e ocidental para perceber que grande parte das instituições que hoje consideramos essenciais nasceram de comunidades que valorizavam exatamente aquilo que agora é ridicularizado, compromisso, espiritualidade e responsabilidade intergeracional.

G.K. Chesterton escreveu que “a tradição é a democracia dos mortos”. Esta frase recorda-nos que a cultura não começa connosco. Quando uma sociedade aprende a rir apenas das suas próprias raízes, deixa de dialogar com a sua história e começa a perder a capacidade de discernir aquilo que deve preservar. Não se trata de rejeitar o humor, trata-se de perguntar porque razão certos símbolos são constantemente escolhidos como alvo fácil enquanto outros permanecem intocáveis.

Diz-se que quem se sente incomodado não sabe lidar com a liberdade de expressão. Mas liberdade verdadeira não é ausência de critério, é responsabilidade consciente. A mesma cultura que exige respeito absoluto por determinadas identidades não pode considerar legítimo banalizar a fé cristã ou a imagem da família tradicional sem cair numa evidente incoerência moral. Não pedimos privilégio, pedimos coerência.

Ser conservador hoje não é viver preso ao passado, é reconhecer que existem verdades humanas que atravessam gerações. A família não é uma invenção ideológica recente, é uma estrutura relacional que continua a demonstrar resiliência social. A fé cristã não é um acessório cultural, é uma força que molda consciências, inspira serviço e sustenta milhões de pessoas nos momentos mais difíceis. Quando estes elementos são reduzidos a caricatura, não é apenas um grupo que é atingido, é a própria memória moral da sociedade que é fragilizada.

Como cristão evangélico acredito que a resposta não está na indignação barulhenta, mas na firmeza serena. Jesus nunca construiu a sua influência através do ridículo do outro, construiu-a através da verdade dita com graça e convicção. Defender valores não exige agressividade, exige coragem. E talvez seja precisamente essa coragem tranquila que mais incomoda uma cultura habituada a ruído constante.

O que está em causa não é um desfile isolado, mas uma tendência cultural que prefere caricaturar em vez de compreender. Ridicularizar a fé tornou-se socialmente aceitável porque muitos assumem que ela já não tem lugar no espaço público. No entanto, a história demonstra que sociedades que cortam a dimensão espiritual acabam por perder também a capacidade de sustentar esperança coletiva.

Não escrevo estas palavras como quem entra numa guerra cultural, escrevo como quem acredita que a tradição ainda tem algo a dizer ao futuro. Continuaremos a ser pais presentes, famílias comprometidas, pessoas que vivem a fé de forma concreta e contemporânea. Não por resistência nostálgica, mas porque acreditamos que aquilo que é verdadeiro resiste ao tempo.

Talvez a pergunta final não seja se a sátira foi permitida, mas se foi justa. Uma cultura madura não se mede pela facilidade com que ridiculariza, mas pela capacidade de dialogar com aquilo que a desafia. E se hoje ser tradicional é visto como contracorrente, então talvez seja precisamente esse o sinal de que ainda vale a pena permanecer firme, não para vencer debates, mas para continuar a construir uma sociedade que não tenha medo das suas raízes.


© Sapo