Europa, a última saída de Starmer
Em 1962, Harold Macmillan disse que os britânicos nunca deveriam escolher entre a Europa e o Atlântico porque o Reino Unido só seria verdadeiramente forte se conseguisse permanecer “entre os dois mundos”. Décadas depois, Keir Starmer tenta fazer precisamente isso: salvar um governo em queda livre através de uma nova aproximação à Europa sem romper totalmente com a lógica do Brexit. O problema é que, neste momento, talvez já não tenha tempo suficiente para o conseguir.
As eleições da última semana no Reino Unido transformaram-se numa espécie de terramoto político de um já fraco governo. Não houve, ainda, a teatralidade de um colapso parlamentar, nem a brutalidade simbólica de uma candidatura à liderança. Mas houve algo talvez mais perigoso: a percepção crescente de que o governo perdeu o país antes mesmo de terminar o mandato. Em Inglaterra, as eleições locais foram uma hecatombe para o Labour, sobretudo em municípios urbanos e industriais historicamente dominados pelos trabalhistas. No País de Gales e na Escócia, onde o voto incidiu sobre parlamentos e estruturas políticas próprias, o cenário não foi menos preocupante. O Labour perdeu capacidade de mobilização, perdeu identidade territorial e, acima de tudo, perdeu a sensação de inevitabilidade política que tinha conquistado depois da esmagadora vitória nas legislativas.
O grande vencedor da noite chama-se Nigel Farage. Mais do que o crescimento do Reform UK, aquilo que verdadeiramente assusta Westminster é a transformação estrutural do sistema político britânico. O velho bipartidarismo entre Conservadores e Trabalhistas começa a parecer uma fotografia antiga pendurada numa parede húmida. O Reform UK ocupa hoje um espaço que vai muito além do protesto anti-imigração. Tornou-se um veículo de ressentimento económico, fadiga cultural e desconfiança institucional. Farage percebeu uma coisa antes dos outros: o Brexit nunca resolveu o problema identitário britânico. Apenas o revelou.
Durante anos, o Brexit foi vendido como uma promessa de prosperidade, soberania e renascimento económico. Hoje, uma parte crescente do eleitorado britânico olha para a realidade e vê crescimento anémico, produtividade em queda, dificuldades de exportação, inflação persistente, deterioração dos serviços públicos e um Reino Unido mais isolado economicamente do que em qualquer momento das últimas décadas. Muitas empresas britânicas perderam acesso simples ao mercado europeu, os custos logísticos aumentaram, a City perdeu parte da sua........
