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E agora, para alegrar as hostes, temos uma guerra entre o Afeganistão e o Paquistão

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28.02.2026

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É surpreendente que dois países que partilham a mesma ideologia se engalfinhem por causa de brincadeiras militares.

A ideologia é o estado totalitário, embora abordado de maneiras diferentes; o Afeganistão é uma ditadura teocrática, dirigida por um líder supremo, o Mullah Hibatullah Akhundzada, que governa por decreto e segue as leis da Sharia do modo mais radical; o Paquistão é oficialmente uma república parlamentar com separação de poderes (muito semelhante à nossa), mas que na realidade está na mão implacável do exército e serviços de segurança. Quanto à religião, ambos são maioritariamente suni. Qual é mais radical sob o ponto de vista religioso, é difícil de dizer. O Afeganistão tem tribunais de “juízes” que aplicam penas de morte, apedrejamentos e enforcamentos. No Paquistão a lei inclui a figura jurídica da blasfémia (insultar Moamé) que dá direito a pena de morte.

Seria natural que fossem amigos, e têm-no sido ao longo dos tempos. O Paquistão ajudou os talibãs afegãos contra os Estados Unidos, albergando fugitivos e formações militares, durante a invasão norte-americana de 2001-2021. Contudo nunca afirmou fazê-lo e manteve um relacionamento atribulado com os invasores. Osama bin Laden viveu no Paquistão durante os 20 anos da guerra, antes de ser abatido por um comando norte-americano. Na altura o Governo paquistanês negou que tivesse conhecimento da presença do líder da al-Qaeda no seu território, o que era impossível.

A amizade entre os dois países foi perturbada em várias ocasiões, especialmente numa guerra de um ano em 1960-1961.

Depois da retirada precipitada dos norte-americanos começaram a surgir tensões fronteiriças, particularmente com incursões talibãs em território paquistanês – semelhantes aos atritos constantes entre a Índia e a China. Comandos afegãos mataram uma quantidade desconhecida de militares e civis paquistaneses.

Esta sexta-feira, 27 de fevereiro, o Paquistão perdeu a paciência com os seus ex-protegidos e bombardeou a capital, Cabul e Kandahar, a residência de Hibatullah Akhundzada. Foram ataques significativos a infraestruturas militares, que só podem ser considerados como uma guerra aberta. Segundo Islamabad, as fatalidades foram de 274 pessoas, sem especificar se foram militares ou civis, afegãos ou paquistaneses. Já Kabul afirmou que morreram 50 militares inimigos.

O que vai acontecer a seguir, ninguém sabe. O Paquistão tem uma superioridade militar enorme, com um exército profissional, com centenas de tanques e aviões e tecnologia de ponta, para não falar nas ogivas nucleares. Esta força destina-se sobretudo aos combates intermitentes com a Índia, o seu principal inimigo. O Afeganistão conta apenas com o material deixado para trás pelos norte-americanos.

Mas há que ter em conta o fator humano. Os afegãos gostam de guerra e nunca nenhum país conseguiu vencer uma guerra contra eles, a começar pelos ingleses no século XIX e os russos no século XX. O terreno montanhoso é impraticável para forças militares convencionais e os afegãos são especialistas em guerra de guerrilha – pequenos grupos com material leve fazem emboscadas temíveis e depois desaparecem na paisagem. Os ingleses tentaram ocupar o país em três campanhas: 1838-1842,1878-1880 e por último em 1919, todas com perdas relevantes.

Os soviéticos conseguiram aguentar-se nove anos, inclusive instalando um governo em Cabul, mas em 1979 perceberam que era impossível sustentar o desgaste e retiraram-se ordeiramente – ao contrário da coligação de vários países, maioritariamente norte-americanos, que retirou em tumulto, com os afegãos a atacar de perto o aeroporto de Cabul. Perderam 3.500 militares — apesar de tudo, muito menos do que os 282.000 mortos nos 20 anos da Guerra do Vietname (1955-1975) e as 34.000 baixas na Guerra da Coreia (1950-1953).

Quanto tempo vai durar o presente conflito? É impossível de prever – provavelmente será mais uma guerra sem fim à vista. Os afegãos não têm meios para propriamente invadir o Paquistão, mas os paquistaneses também não têm muitas hipóteses de ganhar território afegão.

É interessante que nas chamadas “guerras assimétricas” – em que um dos lados tem uma grande superioridade de meios em relação ao outro – geralmente é o mais fraco que ganha, ou pelo menos não perde. Neste momento há mais dois conflitos deste tipo, em Gaza e na Ucrânia, sem contar com as guerras civis eternas em vários países de África.

Provavelmente é o que irá acontecer noutro conflito que começou ontem, com o Irão de um lado e Israel e Estados Unidos do outro.

Os quatro cavaleiros do Apocalipse – Conquista, Guerra, Fome e Pragas – não têm mãos a medir.

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