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A outra guerra

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10.04.2026

Vivemos no paradigma da equivocidade. Não é a falta de informação que nos desafia. É o seu excesso, a sua contradição permanente, a sua proliferação sem hierarquia nem filtro. A sociedade de informação produziu uma condição nova: a assimilação ubíqua. A informação já não é procurada. Encontra-nos. No bolso, no pulso, no intervalo de um semáforo. Chega sem contexto, sem verificação, muitas vezes sem fonte identificável. O consumo informacional afastou-se das fontes primárias e dos órgãos de comunicação social para se concentrar nos produtos das redes sociais: recortes, resumos, releituras, opiniões sobre opiniões. O “big data” antecipa preferências e expõe-nos de forma sistemática ao que queremos ver, não necessariamente ao que precisamos de saber. É neste ambiente que prospera a “misinformation”: informação falsa ou imprecisa partilhada sem intenção deliberada de enganar, mas com efeitos reais sobre a percepção. A equivocidade não a produz, mas oferece-lhe o terreno ideal.

A consequência é paradoxal. Quanto mais informação existe, menor é a capacidade crítica disponível para a processar. O que chega primeiro, ou mais vezes, ou com maior carga emocional, tende a ser retido como verdadeiro. Um drone iraniano interceptado sobre Israel gera imagens, testemunhos e análise em tempo real. A destruição de um complexo de mísseis em Isfahan surge através de comunicados oficiais. O peso cognitivo de ambos não é equivalente, independentemente da sua relevância estratégica.

Sobre este terreno actua o segundo nível: o viés informacional. Não é necessariamente intencional, mas tem efeitos concretos. Resulta de dois factores. O acesso desigual ao terreno, com redacções ocidentais presentes em Tel Aviv ou Abu Dhabi e ausentes de Teerão. E o posicionamento editorial. A “misinformation” encontra aqui um segundo habitat: não nasce da má-fé mas da selecção condicionada, da omissão estrutural, do ângulo que se escolhe e do que fica fora de campo. O caso da BBC é ilustrativo. Em 2025, um memorando interno desencadeou a saída da liderança da emissora após acusações de enviesamento na cobertura de Gaza. No mesmo período, análises independentes identificaram discrepâncias significativas na atenção mediática relativa a vítimas de diferentes lados do conflito. O mesmo órgão pode ser acusado em sentidos opostos. Quando o viés é sistémico, raramente tem rosto.

O terceiro nível é distinto. É intencional, instrumentalizado e operado por actores com recursos. Aqui a “disinformation” e a “malinformation” têm o seu espaço central. A “disinformation” é informação falsa criada e difundida deliberadamente para enganar. A “malinformation” é informação verdadeira usada fora de contexto para causar dano. A distinção não é académica: define o diagnóstico e, consequentemente, a resposta.

A Rússia privilegia a saturação: volume, velocidade e contradição. As narrativas falsas são pré-posicionadas antes dos eventos que pretendem justificar. A teoria dos biolaboratórios americanos na Ucrânia foi plantada semanas antes da invasão de 2022, pronta a ser activada como pretexto no momento do ataque, e circulou em 48 horas entre ecossistemas mediáticos distintos. Em França, investigações judiciais concluíram que episódios como a pintura de Estrelas de David em Paris, em 2023, e a vandalização com mãos vermelhas de um memorial do Holocausto em 2025 envolveram intermediários estrangeiros ligados a redes russas. A escolha de símbolos ambíguos é “malinformation” pura: não é necessariamente falsa, é deliberadamente equívoca, concebida para que cada comunidade leia nela a sua própria ameaça.

A China tende a actuar de forma mais gradual. A operação “Spamouflage”, documentada pelo Departamento de Justiça americano e envolvendo dezenas de milhar de contas falsas operadas por oficiais do Ministério da Segurança Pública, não empurra narrativas próprias: recicla e amplifica conteúdo já existente da extrema-direita e da extrema-esquerda em simultâneo, maximizando a divisão sem que a origem seja rastreável a Pequim.

E actores não estatais operam com a mesma lógica no interior das democracias. Um relatório interministerial francês de 2025 documentou a implantação de redes ligadas à Irmandade Muçulmana em estruturas religiosas, associativas e educativas em várias cidades francesas.

O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) distingue entre alvos inconscientes de operações de influência e actores que actuam deliberadamente contra o interesse nacional. A distinção é juridicamente e politicamente relevante.

Três níveis, três respostas. A equivocidade exige literacia. O viés exige transparência e pluralidade. A desinformação exige detecção, atribuição e resposta. Confundi-los é o primeiro erro. E é precisamente esse erro que torna este terreno tão fértil para quem o procura explorar.


© Sapo