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Mar Cáspio e Cáucaso do Sul adquirem maior importância geopolítica

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27.03.2026

Com o conflito no Médio Oriente (Irão, março de 2026), a importância estratégica do Mar Cáspio e do Cáucaso do Sul ganhou significativa relevância, tornando-se o corredor mais viável para ligar a Ásia Central e a Ásia Oriental à Europa, que contorna simultaneamente a Rússia e o Irão, ambos palcos de conflitos. Para situar o leitor, o Mar Cáspio, maior lago fechado do mundo, situado entre a Europa e a Ásia, é importante pela sua riqueza em petróleo e gás natural, banhando a Rússia, Azerbaijão, Turquemenistão, Cazaquistão e Irão. Já o Cáucaso do Sul (Geórgia, Arménia, Azerbaijão) liga o Cáspio ao Mar Negro.

Com as rotas através da Rússia fortemente restringidas pela guerra na Ucrânia e as rotas pelo Irão agora bloqueadas, ou de alto risco devido às hostilidades, o Caminho de Ferro Transcaspiano e o Cáucaso do Sul tornaram-se vitais.

O estreito corredor terrestre no Azerbaijão (com apenas 190 km de largura) é, atualmente, um dos pontos de estrangulamento mais críticos do comércio mundial, sendo o único espaço que permite o trânsito de bens e energia entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, sem passar por território russo ou iraniano. O tráfego de contentores nesta estreita faixa cresceu exponencialmente, servindo como alternativa às rotas marítimas do Golfo Pérsico, devido ao encerramento do Estreito de Ormuz pelo Irão.

O Cáucaso do Sul constitui o pilar da estratégia europeia para diversificar o fornecimento de gás e petróleo, reduzindo a dependência da Rússia e evitando a instabilidade do Médio Oriente. Constitui, por isso, um valor seguro sob o ponto de vista geopolítico e que importa preservar. Gasodutos como o Corredor Meridional de Gás e o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) são agora alvos estratégicos de proteção máxima, pois garantem o fluxo de recursos do Cáspio diretamente para a Turquia e, daí para a União Europeia.

Novas ligações estão em desenvolvimento. Cabos submarinos de energia verde no Mar Cáspio para ligar a produção de eletricidade renovável da Ásia Central diretamente ao mercado europeu estão a ser estabelecidos. 

O conflito no Irão veio forçar um reposicionamento das potências regionais, no sentido de contornar a influência iraniana nestas geografias e, deste modo, a enfraquecê-la. O projeto de um corredor Norte-Sul que ligaria a Rússia à Índia, via Irão, está completamente paralisado, incrementando, em muito, a importância de projetos apoiados pelo Ocidente e pela Turquia no Cáucaso. Países como a Arménia e o Azerbaijão, que partilham fronteiras terrestres com o Irão, enfrentam riscos de alastramento do atual conflito, incluindo fluxos de refugiados e interrupções no comércio fronteiriço.

No Mar Cáspio, assiste-se a um aumento da dissuasão naval e da vigilância contra atos de sabotagem ou de guerra híbrida que possam visar as plataformas de extração de hidrocarbonetos. As rotas pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz tornaram-se demasiado perigosas, ou mesmo impraticáveis, e o Mar Cáspio está a transformar-se num corredor terrestre viável, alternativo, para cargas potencialmente sensíveis e para o comércio em geral. A Reuters noticiou recentemente que a Rússia já retomou as exportações de cereais para o Irão pelo Mar Cáspio, após interrupções nas suas rotas habituais. Ao mesmo tempo, a União Europeia, o Banco Mundial e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento encontram-se num processo acelerado, visando o desenvolvimento e a materialização do corredor de transporte transcaspiano, que cumpre a finalidade de ligar a Ásia Central, o Cáucaso e a Europa.

Esta rota de abastecimento tem uma destacada importância no capítulo dos recursos energéticos. O petróleo do Mar Cáspio é transportado por oleodutos cruzando o sul do Cáucaso até o Mediterrâneo, enquanto o gás é conduzido à Europa através do Corredor Sul de Gás. A energia faz desta região um verdadeiro centro nodal entre a bacia do Mar Cáspio, a Turquia e os mercados europeus.

Os cereais e outros produtos agrícolas, são, de igual forma, transportados através do Mar Cáspio entre a Rússia, o Cazaquistão e o Irão. Após o início da guerra neste país, parte substantiva desses mesmos carregamentos voltou a servir-se da rota do Cáspio, que se apresentou mais estável do que as outras alternativas passando pelo Golfo Pérsico.

Metais diversos, minerais, produtos químicos, fertilizantes e muitas outras mercadorias contentorizadas são transportados entre a Ásia Central, a China e a Europa usando este corredor. Portos e entroncamentos ferroviários ao longo do Mar Cáspio e do Cáucaso estão a sofrer melhorias significativas, sendo especificamente no sentido de dar resposta cabal às operações de transportes de todos estes produtos.

No entanto, o Mar Cáspio não poderá substituir totalmente o Golfo Pérsico. A sua capacidade é limitada pelo tamanho da frota, pela própria infraestrutura portuária e pela descida visível do nível das águas deste Mar Interior. O principal estrangulamento é mesmo o sul do Cáucaso. Para chegarem à Europa, as cargas precisam de passar por uma série de trechos estreitos: os portos do Cazaquistão; a travessia do Mar Cáspio; o centro de transportes do Azerbaijão; os corredores georgianos e, finalmente, o acesso da Turquia aos mercados europeus. Caso um destes trechos fique sobrecarregado ou eventualmente interrompido, toda a rota sofrerá ficando, consequentemente, mais lenta.

O Mar Cáspio é também importante sob o ponto de vista securitário. A União Europeia verificou, na sequência da imposição de sanções, que muitos componentes destinados à produção de drones iranianos usados ​​na guerra da Rússia contra a Ucrânia foram justamente transportados utilizando essa mesma   rota, o que sugere, desde logo, a existência de uma infraestrutura adequada às operações de logística técnico-militar nessa região. A própria natureza do Mar Cáspio – mar fechado e interior – potencia ainda mais a sua natural atratividade para tal tipo de transferências.

O controlo sobre este corredor encontra-se distribuído entre vários estados. A Rússia, em si mesma, controla a logística do norte do Mar Cáspio e utiliza este “imenso lago interior” como um verdadeiro canal comercial com o Irão. O Cazaquistão, por seu turno, constitui o ponto de entrada mais a Leste, através dos seus portos de Aktau e Kuryk. O Azerbaijão proporciona a interface modal entre o segmento marítimo e o corredor terrestre que cruza o Cáucaso e detém a maior influência operacional na rota transcaspiana. A Geórgia assume-se como o entroncamento imprescindível entre a região do Cáucaso e o próprio Mar Negro e, por fim, a Turquia controla a porta de entrada final do corredor tendo em vista os grandes mercados europeus.

Para cada país, isso cria, igualmente, riscos distintos a serem considerados. O Azerbaijão suporta o volume máximo de trânsito, mas ao mesmo tempo, também se converte num um alvo potencial de pressão ou sabotagem, especialmente contra a infraestrutura energética. A Arménia poderá mesmo correr o risco de ficar de fora da redistribuição de corredores emergentes. A Geórgia, dada a sua posição geográfica, converte-se num ponto nevrálgico de congestionamento. O Cazaquistão pode beneficiar do excelente ensejo de robustecer os seus portos, mas, ao mesmo tempo, poderá igualmente ter de enfrentar riscos de estrangulamentos logísticos. Sob o ponto de vista geopolítico, para a Ásia Central em geral, isso significa maior importância como rota de trânsito e maior dependência de uma rota estreita através do Mar Cáspio e do Cáucaso.

A guerra no Médio Oriente e, particularmente no Irão, está a transformar a região do Mar Cáspio numa bacia logística de crescente importância, enquanto o Cáucaso do Sul se converte num verdadeiro ponto nodal do sistema de transporte eurasiático. Quanto mais tempo o conflito perdurar, maior será a importância deste mesmo corredor, bem como os riscos geopolíticos e de segurança que potencialmente gravitarão ao seu redor.

O Mar Cáspio e o Cáucaso do Sul estão verdadeiramente no centro de uma reconfiguração estratégica global, acelerada por conflitos recentes e pela consequente necessidade de novas rotas comerciais mais seguras.

A sua importância advém, principalmente, da sua posição como "ponte" entre a Europa e a Ásia.

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