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Óscares 2026: Um guião repleto de lições para as nossas vidas

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17.03.2026

Despois de mais uma cerimónia dos Óscares – que decorreu na madrugada de 15 para 16 de Março – olhamos para as “lições” para a vida – pessoal e profissional – de algumas das obras cinematográficas nomeadas deste ano.

Por Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media

Para se ter uma visão geral sobre as nomeações dos Óscares deste ano é preciso ter presente as alterações que o mercado cinematográfico está a sofrer, bem como a diferente maneira de se consumirem filmes e a consequente forma de “fazer cinema”. Ir a uma sala com grandes ecrãs está em declínio. Agora, o que está a aumentar é o visionamento em plataformas digitais, através de ecrãs mais pequenos, como a TV, os portáteis e os telemóveis. Além disso, a indústria dos videojogos está a crescer, atraindo as camadas jovens da sociedade para narrativas com ritmos acelerados, de forte sonoridade e permanentes desafios em crescendo.

Tendo estes factores em conta, percebe-se melhor a razão pela qual o filme mais nomeado este ano é “Pecadores” (“Sinners”), que vai ao encontro desse público, para captar mais audiências. Usa um ritmo rápido, conjugando cenas de acção, sexo, horror e violência, em contextos multirraciais e intergeracionais, procurando cativar espectadores já habituados a estilos narrativos mais contemporâneos.

Um outro filme que quer ajudar a reconquistar o regresso às salas de cinema é “F1”, onde as corridas de automóveis misturam imagens e sons impactantes, merecedoras de serem vistas “em grande”, atraindo não só o público em geral, mas especialmente os amantes do desporto motorizado, que são bastantes pelo mundo fora. O filme procura “piscar o olho” a públicos para lá do espaço norte-americano, como os países asiáticos e europeus, que também recebem corridas de Fórmula 1. Com um elenco diverso, tem o potencial de atrair um vasto público do ponto de vista geográfico, interessado em se “rever” numa narrativa de superação.

Outro aspecto relevante deste filme é a questão orçamental, pois aparecem nas imagens inúmeras referências a marcas e símbolos valiosos, numa operação de product placement e de merchandising lucrativos para ambas as partes. O filme ganha, pois as marcas pagam para ter visibilidade; mas, por sua vez, esses produtos beneficiam de uma projecção global, que a nomeação aos Óscares fez crescer ainda mais.

Nesta mesma linha de captação e fidelização de públicos para além dos EUA, compreende-se a aposta em destacar a qualidade de obras como “Agente Secreto”, do Brasil, agradando às audiências latinas, tão presentes no espaço norte-americano como fora dele.

Porém, analisemos com mais pormenor algumas das obras deste ano, nomeadas para as principais categorias, e que estão repletas de mensagens que nos dão “lições” para a vida: seja pessoal, seja profissional.

Batalha atrás de batalha Este filme segue a vida de um marginal radical numa sociedade polarizada (como a actual), de “bons e maus”, que faz justiça pelas próprias mãos. No entanto, dá-se conta de que há outros valores, como os laços familiares. Por isso, vai abdicar dessa vida de vinganças e lutas em torno de interesses pessoais. O tempo passa e vê-se, de novo, arrastado por pessoas mal-intencionadas para a acção. No fundo, dá-nos uma lição sobre o papel da motivação como o real motor das acções humanas. Só conhecendo o que realmente cada pessoa quer, o que a faz agir, é que é possível entender as suas escolhas e decisões. Alguns são capazes do pior, só para manter o seu estilo de vida, rejeitando qualquer hipótese de diálogo com outras perspectivas. Ao mesmo tempo, fica claro que contar com o apoio de outros é essencial para se potenciar o melhor de cada um. Isso nota-se até ao constatarmos que três dos actores dos filmes são nomeados para as categorias de “Melhor actor” e de “Melhor actor secundário”, pois uns sem os outros não conseguiriam desempenhar os seus papéis de forma tão relevante. O realizador é Paul Thomas Anderson, autor de “Magnolia”, um filme com mais de 20 anos que vale a pena rever.

Valor sentimental Da Noruega chega-nos um filme que aborda em cheio a questão da realização pessoal e da conciliação trabalho-família. A história foca-se num cineasta bem-sucedido que se depara, no fim da vida, com uma família destruída e completamente só. Quer fazer um último filme, que reúna todos. Procura um “sentido”, um perdão que permita um recomeço. Quer retomar a comunicação com as duas filhas, depois de uma prolongada ausência… Que fizera com que uma delas caísse no burnout e numa busca de compensações imediatas de prazer, levando-a à insatisfação pessoal.

A principal lição é a aposta na comunicação, na importância de ouvir e só depois falar, compreendendo bem o que se passa. É graças a uma conversa franca, que se torna “libertadora”, que uma das irmãs esclarece à outra a possível solução para a crise em que se encontra. Assim, vão ultrapassando os problemas e retirando as máscaras que impedem de reflectir e agir correctamente. Tal como no filme anterior, também neste caso as duas actrizes são nomeadas conjuntamente para a mesma categoria de “Melhor actriz secundária”, assumindo lado a lado o desafio do tão cobiçado prémio.

Hamnet O guião refere um episódio da vida real de Shakespeare: a morte do seu filho Hamnet. Depois, foca a questão de como isso afectará a sua vida profissional, em concreto a escrita da peça “Hamlet”. Como a sua mulher ficara devastada com a morte da criança, acusando-o de estar ausente da família, ele tenta colocar nos diálogos das personagens teatrais tudo o que sente e como se podem enfrentar os problemas. Tem um objectivo e traça um plano: reconquistar quem ama.

Ensina-nos, assim, a lutar pelo que vale a pena. Põe “mãos à obra”, pois acredita que pela “Arte” é também possível chegar ao outro, de uma maneira certeira. Mas, para conseguir isso, tem de convencer a sua mulher a ver a peça. Ela só o fará quando aceita o conselho de um mentor, neste caso, do seu irmão. Sai da zona de conforto para entrar num teatro e escutar “outras falas”, lado a lado com mais pessoas. Tudo o que sentem está ali representado, vendo resoluções que são inspiradoras para as suas vidas. E também para as nossas…

O autocarro perdido: The lost bus Este filme está nomeado para um único Óscar, na categoria de “Efeitos Especiais”, mas, tal como “F1”, foi produzido pela “AppleTV+”, demonstrando como de facto se vai alterando a maneira de fazer e distribuir filmes, ultrapassando a forma mais “tradicional” de exibir cinema. No entanto, “O autocarro perdido” merece ser destacado, pois baseia-se na história real de um motorista de autocarro escolar cheio de crianças que consegue levá-las a um destino seguro, conduzindo no meio dos incêndios da Califórnia de 2018, os quais vitimaram mais de 80 pessoas.

A lição que transmite é de que é essencial analisar os dados disponíveis, obter e recolher informação credível antes de tomar uma decisão. Claro que esses dados devem ter em conta a experiência pessoal e serem contrastados com mais alguém, trocando ideias. Só acompanhados é que chegamos mais longe, sem desvios precipitados em feelings individualistas que seriam catastróficos.

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.


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