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Velocidade é poder: o Estado está a travar ou a acelerar a Defesa?

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29.06.2026

A Ucrânia não é apenas um conflito. É um laboratório a céu aberto onde as doutrinas militares do século XX estão a ser testadas e, com frequência, refutadas, em tempo real. Uma das lições mais claras que emergem do campo de batalha é incómoda para as Forças Armadas (FFAA) ocidentais: os seus ciclos de aquisição são lentos demais para a guerra como hoje ela existe. Hoje, a inovação em defesa não pode esperar pelos processos do século passado.

Sistemas não tripulados, guerra electrónica, ISR, inteligência artificial e capacidades autónomas evoluem a um ritmo sem precedentes. Drones que ontem eram eficazes tornam-se obsoletos em semanas, derrotados por contramedidas adaptadas rapidamente. O mesmo sucede com sensores, sistemas de comando e controlo e soluções de comunicação segura. Neste ambiente, os processos burocráticos tradicionais não são apenas lentos, são um risco estratégico.

A vantagem estratégica deixou de depender exclusivamente da qualidade tecnológica dos sistemas. Passou a depender da capacidade de os testar, adaptar e colocar em operação rapidamente.

A solução não é complicada de enunciar, ainda que seja difícil de executar: reformar os processos de aquisição militar através de prototipagem rápida, colaboração estreita com a indústria e redução drástica dos tempos de decisão. Em vez de procurar a solução perfeita após anos de desenvolvimento, criar protótipos mínimos viáveis, testá-los em ambiente operacional e iterar com velocidade. Abandonar a cultura de “analisar eternamente o problema” e passar à da experimentação contínua. O objetivo concreto: reduzir o intervalo entre a identificação de uma necessidade operacional e a disponibilização da solução para menos de 60 dias. Ambicioso? Sim, mas reflete uma mudança filosófica essencial: aceitar riscos calculados e aprender depressa, em vez de tentar eliminar toda a incerteza antes de agir.

Esta transformação tem particular relevância para Portugal, e o país tem mais ativos do que costuma reconhecer. O ecossistema nacional de defesa possui competências reconhecidas em áreas críticas para a guerra moderna. A Tekever destacou-se internacionalmente no domínio dos sistemas aéreos não tripulados e da vigilância marítima. A OGMA desempenha um papel relevante na manutenção e modernização aeronáutica. A EID mantém competências estratégicas em comunicações militares seguras. E um número crescente de startups e centros tecnológicos desenvolve soluções nas áreas da inteligência artificial, cibersegurança e sistemas autónomos.

O caso da Tekever merece ser recordado com honestidade. Em abril de 2014, quando realizou com a Marinha Portuguesa a primeira demonstração pública do drone AR4 Light Ray na Base Naval de Lisboa, o ensaio terminou com uma aterragem imprevista no mar. O episódio foi amplamente ridicularizado. Certo é que no início desse ano, na então Escola Prática de Infantaria (EPI), a Tekever iniciava o primeiro teste e em Junho o Exército Português já utilizava esse drone em missões de reconhecimento e vigilância no Kosovo, integrando a força de manutenção da NATO (KFOR), permitindo às forças no terreno recolher dados de inteligência cruciais de forma autónoma e em tempo real, antes de qualquer avanço de tropas para o terreno. Onze anos depois, esses críticos desapareceram perante os factos: a Tekever é um unicórnio tecnológico e uma referência europeia no setor da Defesa, mas esse percurso não foi linear. Foi o resultado de mais de uma década de desenvolvimento contínuo, testes, falhas e aprendizagem, incluindo validação operacional directa na Ucrânia, que acelerou a evolução do sistema ARX.

Do AR5 ao ARX, a distância não é apenas de meses ou tecnológica; é cultural. É precisamente essa........

© Sapo