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O cobre e o zinco do Baixo Alentejo e a soberania europeia dos recursos

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Portugal pode ser pequeno no mapa, mas não tem de ser periférico na geopolítica dos recursos. A transição energética e digital – das baterias às redes elétricas, dos data centers às energias renováveis e à defesa – transformou matérias-primas como o cobre em ativos estratégicos. Este metal não é apenas crítico para a transição verde europeia; tem também um peso económico real nas exportações portuguesas, representando, ano após ano, valores na ordem dos milhares de milhões de euros e contribuindo de forma significativa para a balança comercial do país. Não sendo uma matéria-prima crítica, deve ser também tido em conta o peso das exportação de zinco.

O debate europeu sobre matérias-primas continua, porém, excessivamente abstrato. Fala-se de neutralidade carbónica e de objetivos climáticos ambiciosos, mas raramente se encara a base material que os sustenta. O cobre é essencial à eletrificação da economia e à expansão das redes energéticas. É um metal estruturante de uma economia moderna e, no caso português, pilar de um setor exportador integrado no mercado europeu.

É neste contexto que Portugal pode desempenhar um papel relevante. Não porque seja um “eldorado” mineiro, mas porque reúne condições raras no quadro europeu: estabilidade institucional, enquadramento regulatório exigente, capacidade técnica instalada e uma posição geográfica estratégica. No Baixo Alentejo, a produção de cobre e zinco demonstra que é possível responder a necessidades europeias concretas a partir de território nacional, gerando valor económico, emprego qualificado e exportações com elevado grau de incorporação industrial.

A importância estratégica destas matérias-primas não se mede apenas em toneladas extraídas. Mede-se na capacidade de reduzir dependências externas, reforçar cadeias de abastecimento europeias e assegurar matérias essenciais à indústria, à energia e à defesa. Quando Portugal exporta cobre e zinco produzidos segundo elevados padrões ambientais e sociais está também a exportar confiança, previsibilidade e alinhamento com os valores europeus.

Mas seria um erro reduzir a discussão à extração. O verdadeiro desafio passa por criar cadeias de valor completas: transformação, reciclagem, inovação e qualificação. O cobre, em particular, evidencia o potencial da economia circular, pela sua elevada taxa de reciclagem e de reutilização. Apostar nestes metais é também apostar numa indústria mais resiliente e menos exposta a choques geopolíticos.

O debate público tende a cair na polarização. Entre a exploração a qualquer custo e a rejeição absoluta, perde-se uma evidência fundamental: não produzir na Europa não elimina impactos, apenas os desloca. Se a transição verde é uma prioridade estratégica, então a produção responsável de matérias-primas também tem de o ser.

O cobre e o zinco do Baixo Alentejo não resolvem, por si só, o desafio europeu das matérias-primas. Mas simbolizam uma escolha consciente: reforçar exportações, criar valor nos territórios e contribuir para a soberania europeia dos recursos. Essa escolha é, hoje, inevitável.


© Sapo