A singularidade de Cavaco
No final da passada semana surgiu aqui no Expresso mais um excelente artigo de Cavaco Silva.
Cavaco, que foi Ministro das Finanças e do Plano, três vezes Primeiro-Ministro, duas Presidente da República, que obteve por quatro vezes mais de 50 por cento dos votos, é uma das figuras mais marcantes da nossa democracia. Esse lugar é seu por mérito próprio e exclusivo, e pela forma eximia como aplica a lei da oferta e da procura à sua opinião, razão pela qual deve ser lido e relido.
Foi o que fiz. Mais, selecionei e sublinhei algumas das partes do seu texto:_
- “O dinheiro não cai do céu”;
- “…este tipo de reivindicações que inundam a comunicação social , justas na sua maioria, não ser acompanhado da interrogação sobre como financiar o aumento da despesa ou a redução de receitas que lhes estão associados”;
- …o dinheiro do Estado não é mais do que o produto dos impostos que os portugueses pagam”;
- “Sendo o crescimento económico uma condição necessária, o ideal seria que os cidadãos fossem alertados para a sua importância”;
- “Ao espírito reformista revelado pelo atual Governo …contrapõe a oposição ações de desgaste visando impedir a concretização de reformas”;
- “As reformas estruturais exigem do Governo em exercício visão de futuro”;
- “As reformas estruturais não são, normalmente, populares”;
- “O PS atual …não manifesta qualquer vontade reformista”;
- “O líder do Chega procura iludir e enganar os portugueses”.
Fiz a seleção destas frases e poderia ter juntado tantas mais. De facto, ler o político mais reformista da nossa história democrática é um privilégio que deve ser aproveitado. E para evitar leituras deturpadas, utilizo a fonte de forma direta para delas retirar algumas conclusões.
A primeira é, precisamente, o risível que é ouvir algumas conclusões sobre o que foi escrito. A ideia de que o texto tem por fim uma critica essencialmente dirigida ao Governo merece de facto umas saborosas gargalhadas. Será que não perceberam que se refere a um Governo com espírito reformista que tem embatido em forças de bloqueio que não percebem – ou fazem por não perceber - que o dinheiro não cai do céu?
Claro está que, sem azedume, Cavaco aponta caminhos e distribui diferentes centros de pressão.
O primeiro sobre o Governo. O executivo - que tem pela frente um Presidente da República que não será obstáculo a reformas - deve apresentar, de forma clara, a sua visão de futuro. Deve juntar ao equilíbrio das contas públicas, do baixo desemprego, e de um conjunto de medidas ambiciosas já adotadas na habitação, disciplina na imigração, de decisões relativas às infraestruturas, propostas laborais, reorganização das urgências hospitalares, ou medidas como a carteira digital das empresas, outras reformas como as que necessitam a educação, justiça, saúde, ambiente, política energética ou economia. Bem sei que Roma e Pavia não se fizeram num dia, e que foi necessário resolver urgências herdadas, clarificar posições políticas e passar por todos os atos eleitorais nacionais. Agora, tem de se acelerar o passo e mostrar o caminho para um maior crescimento e justiça social.
Para isso, não existindo maioria, e num quadro sem eleições, as oposições têm de demonstrar se ou não estão à altura dos desafios. E aqui surge a segunda linha de pressão do artigo. É evidente que devem apresentar as suas alternativas e assumir o seu espaço discursivo. Mas o PS não pode dizer que não a tudo o que é proposto pelo atual executivo. O programa de governo que Luís Montenegro quer executar foi votado pelos portugueses e passou na Assembleia da República. Como é natural, terá de ser negociado. Não pode é ser constantemente recusado.
Por fim, a terceira linha de pressão está sobre o Chega. Ou muda radicalmente ou só por comédia pode ser comparado ao Governo italiano. A política populista seguida fica pelos minutos no TikTok. Cavaco, com elementar bom senso, coloca uma pedra tumular sobre a ideia de um Chega reformista ou a possibilidade de uma grande direita. É precisamente aÍ que está o ponto fulcral. Se André Ventura se quiser manter como um catavento mediático e político, ou um apóstolo fanático de causas absurdas, as linhas, que o impedem de estar num acordo de governo, tornar-se-ão então cada vez mais vermelhas.
Por fim, Cavaco aponta de forma linear e transparente o caminho. O crescimento de 3 ou 4%, assente numa economia mais dinâmica e num Estado cada vez mais reformado. Só espero que não se tente virar o que está escrito ao contrário e que a luva se ajuste cada vez mais. Eu cá por mim ficarei à espera do próximo artigo de Cavaco na certeza de que será de aproveitar até à sua última linha. A sua opinião sobressai não apenas pelo mérito dos seus argumentos, mas também pela singularidade de quem sempre liderou governos reformistas.
