A agenda trans é a da empatia
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Foi com ela que aprendi que o exercício de te explicares, de pronunciares juízos absolutos, de te veres na obrigação de validares constantemente a tua existência, é uma violência interminável; que a gramática correcta é a afectiva, a do nós, a do todas, a do juntas; que a humilhação e o ódio matam. O facto de N. ser trans não deveria incomodar ninguém. Contudo, tal como o debate público em torno da lei da identidade de género tem vindo a revelar, afirmar que N., é uma pessoa e, como tal, devem-lhe ser salvaguardados direitos fundamentais, parece, nos dias que correm, uma declaração revolucionária.
Na verdade, os ataques direccionados a pessoas trans e intersexo, e à comunidade LGBTQIA+ em geral, não são, de forma alguma, algo de novo. As propostas apresentadas pelo PSD, CDS e Chega, discutidas na Assembleia da República no passado dia 19 de Março, inserem-se num movimento anti-democrata e anti-direitos humanos mais abrangente, com repercussões visíveis dentro e fora do país.
Segundo o relatório A igualdade LGBTIQ numa encruzilhada: progressos e desafios, publicado, em 2024, pela Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), dos 30 países em análise, a taxa mais elevada de discriminação contra mulheres trans foi registada em Portugal (77 %). O mesmo relatório demonstra ainda que, em Portugal, 74% dos inquiridos afirmam ter sofrido bullying na escola, terem sido ridicularizados, gozados, insultados ou ameaçados por pertencerem à comunidade LGBTIQ.
Já o relatório da Amnistia Internacional sobre o estado dos direitos humanos, publicado em Abril de 2025, alerta para a intensificação de violações dos direitos LGBTI em várias regiões do globo, como é o caso da Hungria em que o governo introduziu novas restrições a publicações ou produtos cujo “elemento definidor” fosse considerado como retratando ou promovendo temas LGBTI. Sabemos também que os jovens da comunidade LGBTQIA+ têm uma probabilidade três vezes superior de se tentar suicidar, quando comparados com os seus colegas hetero. (Johns et al., 2020).
Poderia continuar a listar relatórios e estudos, mas de que valem dados contra convicções? Após ouvir os deputados da AR sobre este tema, creio que quem apresentou estas propostas não está minimamente interessado na evidência científica. O que levanta a questão: se factos não mudam mentalidades, o que pode mudar? Eu diria que o caminho a percorrer é o da empatia.
A empatia é um exercício de compaixão capaz de revelar aquilo que temos de mais humano, de mais frágil e belo. Não admira, portanto, que, num clima de ódio e hostilidade, ela esteja sob ataque. Empatia foi a palavra que o empresário e aliado de Trump, Elon Musk, descreveu, em 2025, como uma “fraqueza fundamental da civilização Ocidental.” A psicologia fala-nos também do daughter effect (efeito filha) i.e. um fenómeno em que pais (homens) tornam-se mais empáticos quando têm uma filha e mais conscientes para questões de género. Não deveria ser necessário um homem ser pai para chegar à conclusão de que existem desigualdades estruturais na sociedade, mas essa ainda é a realidade em que vivemos.
Talvez o que nos reste, na ausência de consenso em relação a factos e dados, seja mesmo apelar à empatia, continuar a contar histórias e a expor casos concretos; como o da professora em França que se suicidou, em 2025, após sofrer dois anos de assédio sistemático por ser lésbica. Chamava-se Caroline Grandjean.
O amor assusta quem vive do ódio. A liberdade assusta quem beneficia da opressão alheia. Voltamos sempre ao mesmo: o “eu” e o “outro”, o que consideramos universal e o que colocamos à margem.
Em 1980, o escritor norte-americano James Baldwin afirmou que “as crianças são sempre nossas, cada uma delas, em todo o globo.” Àqueles que à menção da palavra trans, e sempre que os direitos de pessoas LGBTQIA+ estão em discussão, levantam a bandeira da infância, que nos falam de proteger menores, que nos dizem para “deixar as crianças em paz”, pergunto-vos: de que crianças estão a falar?
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