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Os olhos de Marco Polo

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01.07.2026

Marco Polo é citado no título da matéria “Os olhos de Marco Polo”.

A reportagem não traz fatos adicionais nem detalhes sobre o assunto.

Sempre me impressionou um comportamento que atravessa os séculos quase sem sofrer alterações. Quanto menos conhecemos um povo, maior costuma ser nossa segurança ao descrevê-lo. Formamos opiniões sobre países onde nunca estivemos, repetimos diagnósticos produzidos por terceiros e transformamos interpretações alheias em convicções pessoais. A tecnologia reduziu distâncias, multiplicou fontes de informação e colocou o planeta inteiro na tela de um telefone celular. Ainda assim, continuamos confundindo familiaridade com conhecimento. Ver imagens não significa compreender uma sociedade. Ler manchetes não é o mesmo que investigar sua história. A inteligência começa exatamente quando aceitamos substituir a certeza pelo esforço da observação.

Essa inquietação me acompanha desde a adolescência. Naqueles anos, três personagens passaram a frequentar permanentemente minha biblioteca e minha imaginação: Marco Polo, Leonardo da Vinci e Leon Tolstói. Nunca me interessei por eles apenas porque produziram obras extraordinárias. O que me atraía era uma característica muito mais rara: os três recusaram viver intelectualmente confinados. eles perceberam ainda em seu tempo que a luz é boa não importa em que lâmpada brilhe, reverberando de forma retroativa o pensamento do sábio persa ‘Abdu’l-Bahá.

Leonardo atravessou com absoluta naturalidade as fronteiras entre pintura, engenharia, anatomia, matemática e observação da natureza. Tolstói explorou a complexidade da alma humana com uma profundidade que continua desconcertando leitores de todas as culturas. Marco Polo tomou uma decisão ainda mais ousada para um jovem do século XIII: preferiu descobrir o mundo com os próprios olhos em vez de aceitar as fronteiras impostas pela imaginação de sua época.

É justamente aí que sua história deixa de ser uma aventura medieval para transformar-se numa poderosa reflexão sobre o nosso tempo.

Marco Polo nasceu em Veneza por volta de 1254, numa das cidades comerciais mais importantes da Europa. Os navios venezianos cruzavam o Mediterrâneo, negociavam com Bizâncio, o Oriente Médio e o norte da África. Apesar dessa intensa atividade mercantil, o conhecimento europeu sobre a Ásia Oriental permanecia fragmentado. A China era conhecida por relatos indiretos, histórias fantásticas e descrições frequentemente exageradas. Falava-se de riquezas imensas, cidades monumentais e imperadores poderosos, mas quase ninguém possuía experiência direta daquele universo.

Em 1271, aos dezessete anos de idade, Marco Polo decidiu acompanhar o pai, Niccolò, e o tio, Maffeo, numa jornada que alteraria para sempre sua visão do mundo. Durante aproximadamente quatro anos atravessaram montanhas, desertos e antigas rotas comerciais, percorrendo cerca de vinte e quatro mil quilômetros até alcançar a corte de Kublai Khan, neto de Gêngis Khan e fundador da dinastia Yuan. Não se tratava apenas da maior potência política da época. Tratava-se de uma civilização cuja escala econômica, urbana e administrativa não encontrava equivalente na Europa medieval.

Marco Polo permaneceu ali cerca de dezessete anos.

Testemunha da história

Esse dado, muitas vezes citado apenas como curiosidade biográfica, ajuda a compreender por que seu testemunho adquiriu tanta importância histórica. Ele não descreveu a China como viajante de passagem. Viveu tempo suficiente para conhecer seus mecanismos de........

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