Antes de qualquer contrato, alguém precisa acreditar primeiro no livro
Ernest Hemingway chegou a Nova York e foi direto ao escritório da Charles Scribner's Sons, onde encontrou o editor Max Perkins.
Perkins apresentou Hemingway a F. Scott Fitzgerald, que reconheceu seu talento, criando um triângulo escritor‑editor que impulsionou a carreira de Hemingway.
Décadas depois, J. D. Salinger recebeu apoio de William Shawn, editor da The New Yorker, que o publicou contra a resistência interna até sua aposentadoria em New Hampshire.
Em 1917, Virginia e Leonard Woolf fundaram a Hogarth Press, uma pequena editora caseira.
Ernest Hemingway chegava a Nova York e ia direto a um endereço antes de procurar a própria casa: o escritório de Charles Scribner’s Sons, na esquina da Quinta Avenida. Ali o esperava Max Perkins, o editor que também acompanhava F. Scott Fitzgerald e Thomas Wolfe. Perkins não corrigia apenas vírgulas. Emprestava dinheiro quando o escritor vivia sem um tostão, aconselhava em crises de casamento, sugeria títulos, inventava enredos inteiros quando o autor emperrava. Um perfil de época, publicado na revista The New Yorker, chamou-o de amigo inabalável — descrição que os próprios escritores confirmavam ao dedicar a ele mais livros do que a qualquer outro editor da história americana: sessenta e oito, até sua morte, em 1947.
Essa mesma dedicação vinha de longe. Foi Perkins quem apresentou Hemingway a Fitzgerald, e foi Fitzgerald quem avisou o editor sobre o talento do jovem veterano de guerra recém-chegado de Chicago. A amizade entre os três formou um triângulo raro: dois escritores geniais e um editor que os tratava como irmãos, mesmo quando eles brigavam entre si, mesmo quando Fitzgerald afundava na bebida e Hemingway subia sozinho ao topo da fama americana. Perkins segurou os dois até o fim.
Amizades que atravessam fronteiras
A mesma geração produziu outro par digno de nota. Décadas depois, do outro lado da mesma tradição, J. D. Salinger encontrou em William Shawn, editor da revista The New Yorker, uma relação parecida. Salinger era irascível com quase todo mundo, mas com Shawn guardou outra linguagem inteira: chamou-o de editor, mentor e o mais próximo amigo que teve. Shawn respondeu, em carta, que o céu já o havia ajudado ao lhe dar Salinger. A confiança sustentou décadas de silêncio editorial: Shawn publicou o autor de O Apanhador no Campo de Centeio contra o conselho de outros editores da revista, e continuou publicando até Salinger se recolher de vez ao interior de New Hampshire.
Se essa cumplicidade já bastava para unir escritor e editor além de qualquer contrato, houve quem levasse a ideia a um extremo mais radical, eliminando por completo a figura do intermediário. Virginia Woolf casou com Leonard Woolf em 1912 e, cinco anos depois, os dois montaram na sala de casa uma pequena impressora manual, fundando a Hogarth Press. Ali Virginia publicou a própria obra, livre das exigências de editoras externas, ao lado de nomes que se tornariam centrais ao modernismo, como T. S. Eliot e Katherine Mansfield. Casamento e casa editorial se tornaram a mesma coisa.
Do outro lado do Canal da Mancha, essa mesma amizade entre escritor e editor foi posta à prova por algo mais grave que o mercado: o nazismo. Peter Suhrkamp........
