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A encíclica da unidade humana

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26.05.2026

O século XXI talvez esteja produzindo a mais silenciosa transferência de poder da História humana. Não se trata apenas de governos, exércitos ou mercados financeiros. O deslocamento agora ocorre em outra dimensão: algoritmos capazes de moldar emoções, plataformas que reorganizam comportamentos coletivos e sistemas de inteligência artificial que começam a interferir diretamente na percepção humana da realidade.

A nova encíclica do Papa Leão XIV compreendeu isso com clareza rara.

“Magnifica Humanitas” não é um texto religioso convencional. Tampouco um manifesto de rejeição tecnológica. O documento entra no centro da crise contemporânea: o risco de a civilização alcançar níveis inéditos de sofisticação técnica enquanto empobrece moralmente, fragmenta vínculos humanos e perde a própria noção de destino coletivo.

Leão XIV parece compreender que o século XXI eliminou definitivamente a possibilidade de destinos isolados. Por isso, “Magnifica Humanitas” apresenta-se também como uma encíclica da unidade humana e de um mundo indivisível. O Papa recorda que nenhuma sociedade permanecerá segura, estável ou próspera enquanto sofrimento, desigualdade e desumanização forem tratados como problemas distantes de “outros povos”.

Há uma passagem particularmente contundente logo no início da encíclica. O Papa escreve:

“A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.”

A metáfora é poderosa.

Babel nunca simbolizou apenas arrogância humana. Representava uma sociedade fascinada pela própria capacidade técnica, pela própria ideia de grandeza e pela ilusão de autonomia absoluta. Uma civilização convencida de que engenharia e poder bastariam para substituir consciência, transcendência e responsabilidade moral.

Leão XIV percebe que existe algo profundamente semelhante acontecendo agora.

Durante décadas fomos treinados a acreditar que inovação tecnológica equivaleria automaticamente a progresso humano. Como se velocidade fosse sinônimo de sabedoria. Como se eficiência substituísse discernimento. Como se capacidade computacional pudesse preencher vazios emocionais e éticos.

O resultado começa a aparecer de forma cada vez mais evidente.

Vivemos numa época em que plataformas digitais conhecem hábitos emocionais de bilhões de pessoas com precisão inquietante. Empresas privadas acumulam volumes gigantescos de dados sobre comportamento humano. Sistemas de inteligência artificial........

© Revista Fórum