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Entre moderação e ruptura: Flávio Bolsonaro e o duplo discurso

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03.04.2026

Entre moderação e ruptura: Flávio Bolsonaro e o duplo discurso

A política tolera contradições — mas não por muito tempo. Em algum momento, a realidade cobra coerência. É exatamente nesse ponto que a tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como um nome de direita moderada começa a se desfazer. Seu movimento não é trivial: trata-se de reposicionar o bolsonarismo para 2026 sem Jair Bolsonaro nas urnas, suavizando a forma para ampliar o alcance eleitoral. Mas há um problema central, incontornável: não basta mudar o tom — é preciso revisar fundamentos. E, até aqui, tudo indica que eles permanecem intactos. A construção dessa nova imagem segue uma lógica conhecida e, em certa medida, sofisticada. Flávio busca ocupar o espaço de uma direita institucional, menos ruidosa, capaz de dialogar com setores econômicos, com o centro político e com eleitores exaustos da polarização crônica. É uma tentativa de transformar herança em viabilidade. No entanto, esse tipo de operação vai além do ajuste retórico — cobra consistência comportamental.

A política tolera contradições — mas não por muito tempo. Em algum momento, a realidade cobra coerência. É exatamente nesse ponto que a tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como um nome de direita moderada começa a se desfazer. Seu movimento não é trivial: trata-se de reposicionar o bolsonarismo para 2026 sem Jair Bolsonaro nas urnas, suavizando a forma para ampliar o alcance eleitoral. Mas há um problema central, incontornável: não basta mudar o tom — é preciso revisar fundamentos. E, até aqui, tudo indica que eles permanecem intactos.

A construção dessa nova imagem segue uma lógica conhecida e, em certa medida, sofisticada. Flávio busca ocupar o espaço de uma direita institucional, menos ruidosa, capaz de dialogar com setores econômicos, com o centro político e com eleitores exaustos da polarização crônica. É uma tentativa de transformar herança em viabilidade.

No entanto, esse tipo de operação vai além do ajuste retórico — cobra consistência comportamental. E é justamente aí que a engrenagem falha. Ao mesmo tempo em que se apresenta como um moderado, o senador mantém ativo o repertório discursivo que alimentou a desconfiança institucional nos últimos anos, revelando uma tensão que não se resolve — apenas se disfarça.

Essa contradição ganha contornos mais nítidos quando se observa sua atuação recente no exterior. Ao falar em “mundo livre” e sugerir dúvidas sobre a lisura do sistema eleitoral brasileiro, Flávio Bolsonaro não comete um deslize isolado — ele reafirma um padrão. Trata-se da reativação de uma narrativa amplamente contestada por instituições nacionais e observadores internacionais, mas que permanece politicamente útil por um motivo simples: não precisa ser comprovada — basta ser acreditada. É a política da suspeita permanente, na qual a legitimidade democrática deixa de ser um dado e passa a ser uma variável estratégica.

É aqui que a inconsistência se torna incontornável. Não existe moderação possível quando se preserva o mecanismo central da radicalização: a dúvida sistemática sobre as regras do jogo. A moderação exige compromisso inequívoco com o resultado eleitoral, com a institucionalidade e com a previsibilidade democrática. Ao flertar com narrativas que fragilizam esse pacto, Flávio Bolsonaro não apenas contradiz seu próprio reposicionamento, como também revela que sua mudança é mais performática do que real — uma modulação de linguagem que não resiste ao primeiro teste de coerência.

O problema se aprofunda quando se observa o ambiente político com o qual o senador escolhe dialogar fora do país. Em vez de construir pontes amplas dentro do campo conservador, ele se ancora em circuitos ideológicos marcados pela radicalização e pela guerra cultural como eixo central. Essa escolha não é neutra — delimita fronteiras, define linguagem e, sobretudo, expõe prioridades. Ao ecoar esse repertório, Flávio reafirma vínculos que tensionam sua tentativa de se apresentar como alternativa moderada, tornando cada vez mais difícil sustentar a narrativa que busca consolidar internamente.

Há, sem dúvida, cálculo político nessa ambiguidade. Existe um eleitorado disponível para uma direita menos agressiva, mas ainda firmemente posicionada. A questão é que esse eleitorado — ao contrário da base mais fiel — não se move apenas por identidade, mas por credibilidade. E credibilidade, em política, é um ativo que se constrói com coerência acumulada, não com reposicionamentos táticos. Cada discurso contraditório, cada aceno dúbio, cada reaproveitamento de narrativas desgastadas corrói exatamente aquilo que essa nova imagem tenta consolidar.

No fundo, o que está em jogo é uma questão mais profunda do que a viabilidade eleitoral de Flávio Bolsonaro. Trata-se de saber se é possível dissociar o bolsonarismo de seus próprios métodos sem romper com sua essência. Até aqui, a resposta parece negativa. O que se vê é uma tentativa de reembalar o mesmo conteúdo sob uma nova estética — menos ruidosa, mais calculada, mas ainda presa aos mesmos impulsos que definiram o ciclo anterior.

A política brasileira já demonstrou que é capaz de absorver contradições — mas cobra, inevitavelmente, o preço delas. E é justamente esse preço que começa a se desenhar no caso de Flávio Bolsonaro. Ao tentar ser, ao mesmo tempo, herdeiro e ruptura, continuidade e alternativa, ele se coloca em uma zona de ambiguidade que pode ser taticamente útil no curto prazo, mas estruturalmente insustentável no longo.

Quando a moderação não chega à prática, ela deixa de ser projeto e se revela como encenação. Pode até produzir aplausos momentâneos, mas desmorona diante dos fatos. E, nesse ponto, expõe o essencial: nunca houve moderação — apenas uma construção calculada, incapaz de resistir ao teste da realidade.

*Marcelo Copelli é jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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