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Carnaval: a saga de um costume rebelde

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17.02.2026

O Carnaval, originário de festejos pagãos e incorporado pela Igreja, chegou ao Brasil com o Entrudo, sendo posteriormente "civilizado" e adaptado ao modelo europeu.

Ao longo da história brasileira, o Carnaval enfrentou repressão da Igreja, do Estado e, atualmente, do capitalismo, adaptando-se e resistindo através de blocos de rua e manifestações populares.

Durante a era Vargas, o Carnaval foi utilizado para promover uma cultura nacional, enquanto na ditadura militar, a censura moral reprimiu fantasias e expressões consideradas subversivas.

Atualmente, o Carnaval enfrenta a opressão do capital, com a elitização dos desfiles, mas mantém traços de resistência popular através dos blocos de rua e celebração de religiões de matriz africana.

O historiador Edward Thompson dizia que “a cultura conservadora da plebe quase sempre resiste, em nome do costume”.[1] Podemos dizer que o Carnaval se adequa a essa premissa, pois resiste desde a intervenção da Igreja Católica nos festejos populares pagãos.

A Igreja incorpora tais festejos dando a eles um sentido cristão, como um período de tolerância que precede a Quaresma, tempo de jejum em relação ao consumo de carne até a Páscoa. Contudo, o carnaval oferecia “uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado”. Não era uma festa alienante, pelo contrário. Mikhail Bakhtin, um dos baluartes dos estudos sobre o carnaval medieval, observa que durante os festejos, “a alienação desaparecia provisoriamente. O homem tornava a si mesmo e sentia-se um ser humano entre seus semelhantes”.[2]

A Igreja impõe um período de privação. Jejum e abstinência, não só de carne, mas de ovos, sexo, ir ao teatro ou outros entretenimentos. Por isso, os três principais temas, reais e simbólicos do carnaval era a comida (bebida), sexo e violência.

A carne era consumida exageradamente. Os açougueiros eram figuras centrais nos desfiles. “Em Koenigsberg, em 1583”, escreve Peter Burke, “noventa açougueiros carregavam em desfile uma salsicha que pesava quase duzentos quilos”.[3] A atividade sexual aumentava e os casamentos simulados eram uma das principais brincadeiras populares. Era permitido a agressão verbal e usar máscaras com longos chifres e narizes que representavam símbolos fálicos. Não é à toa que Momo, o Deus grego do sarcasmo e da ironia, se tornou o símbolo da festividade.

O Carnaval chega ao Brasil através dos portugueses com a tradicional festa do entrudo. Durante o século XIX, um viajante descreveu o festejo: “Segundas e terças-feiras antes de Cinzas são os dias próprios para o Entrudo, mas o divertimento, como no caso vigente, pode começar uma semana antes do prazo. Água e pós para cabelo são os ingredientes indicados para lançarem uns aos outros, mas, frequentemente não guardam equilíbrio e tudo quanto se pode agarrar, esteja sujo ou limpo, é atirado, de todas as partes, para inocentes e culpados”.[4]

Mas a Igreja, ainda durante a colônia, procura proibir a festa. “Os jesuítas chegaram a propor a adoração ao Santíssimo Sacramento durante os festejos. Mas o povo deu de ombros para a ideia e continuou se esbaldando pelas ruas. Intermináveis, os folguedos populares passavam batidos pela quarta-feira de cinzas, adentrando os dias de recolhimento aconselhados durante a Quaresma”.[5]

Mas o Entrudo, enfim, foi proibido em 28 de fevereiro de 1854. O Carnaval se impõe. De acordo com Lilia Schwarcz, “o ‘novo Carnaval’ fazia parte de um projeto ‘civilizatório’ mais amplo que, nesse caso, procurava mudar o caráter do ritual brasileiro, transformando-o numa cópia do modelo europeu veneziano”.[6]

No ano seguinte à proibição do entrudo, “Mello Moraes descreve o primeiro desfile alegórico do Rio de Janeiro: foi em 1855, quando houve a passeata do Congresso das Sumidades Carnavalescas”. Até o imperador participou. “A família imperial chegava às sacadas, e os ‘vivas’ e hurras, como uma pirâmide sonora que enfiasse a grimpa na intensidade, tinha por base ondulante o pasmo de toda aquela população”.[7]

Porém, não houve jeito, “o Carnaval convivia nas ruas com o Entrudo”, como mostra Schwarcz. O povo resiste em nome do costume.

Nascem as Sociedades Carnavalescas, que também tentaram implantar um modelo de carnaval civilizado no Rio de Janeiro, à imagem dos carnavais europeus. Como explica o historiador Eric Brasil, “os préstitos das Grandes Sociedades Carnavalescas pretendiam ‘ensinar’ ao povo como brincar: organizadamente, apenas assistindo ao desfile, como plateia e não mais como atores”.[8] Mas para o desagrado das elites imperiais, essas sociedades se associaram a ideias progressistas defendendo a abolição da escravidão e destacando as mulheres que personificam, nos carros alegóricos, a Democracia, ou a Liberdade.[9]

O povo queria representatividade na rua do Ouvidor, lugar considerado “artéria da civilização” e onde ocorriam os desfiles. Os Cucumbis, grupos de foliões reconhecidos como negros, buscavam ocupar a nobre rua da corte imperial. Jornalistas avaliavam as apresentações para publicarem nos jornais do dia seguinte. Foi quando a Sociedade Iniciadora dos Cucumbis, no carnaval de 1886, foi saudar o jornalista José do Patrocínio. “Dançando em frente à redação de seu jornal, aquela sociedade carnavalesca queria transmitir uma mensagem. Associava-se à imagem do famoso abolicionista e fazer saber todos que compartilhava de seus ideais”.[10]

No início da República, as manifestações populares continuavam a ser reprimidas. Em 1906, o Jornal do Commercio atacava a participação negra nos festejos. “Era ‘o pessoal duvidoso’, detalhando o jornal que ‘[…] em um canto se formavam os cordões terríveis, ameaçadores, selvagens. Em outro canto reuniam-se os sambas, não menos terríveis, muito selvagens [parecendo] uma festa Carnaval em que tomava parte a sociedade alegre, livre e perigosa da cidade”.[11] Esta era uma descrição sobre a festa da Penha, mas a comparação com o Carnaval mostra a posição do jornal em relação à folia popular.

Nicolau Sevcenko destaca a repressão aos costumes populares durante o Carnaval na Primeira República: “O carnaval que se deseja é o da versão europeia, com arlequins, pierrôs e colombinas de emoções comedidas, daí o vitupério contra os cordões, os batuques, as pastorinhas e as fantasias populares preferidas: de índio e de cobra viva. As autoridades não demoraram a impor severas restrições às fantasias – principalmente de índio – e ao comportamento dos foliões -principalmente dos cordões”.[12]

Na era Vargas, o projeto de uma cultura nacional precisava ser mediado e tutelado pelo Estado. Villa-Lobos seria o mediador das manifestações culturais legítimas. Ou seja, a cultura erudita determinava o que era popular. Eram necessários símbolos nacionais nos festejos. “Em 1939”, por exemplo, “o Centro dos Cronistas Carnavalescos impõe a tônica festiva e promove um cortejo com duzentos automóveis, em que cada participante levou uma bandeira do Brasil”[13].

O Carnaval passou a ser uma “iniciativa do poder público no sentido de legitimar uma cultura tipicamente brasileira, tendo por base o folclore”. Sendo assim, os cordões não sofrem mais a mesma perseguição “por tocarem instrumentos como cuíca e o reco-reco que remetem aos indivíduos ‘briguentos’ que poderiam usá-los para esconder armas”, como diziam os jornais da época.[14] As escolas de samba começam a surgir. Os bailes são apontados como a nova tendência das famílias e os clubes de futebol promoviam batalhas de confetes, festas a fantasia com coquetéis para o pessoal da imprensa.

Em janeiro a cidade do Rio de Janeiro já era visitada por turistas estadunidenses e argentinos principalmente. Carmem Miranda era a propaganda do Carnaval brasileiro para os gringos. O Brasil, portanto, vai se tornando o país do Carnaval.

Nos anos 1950, Vargas é homenageado pela maioria das escolas de samba e marchinhas de carnaval são feitas para o estadista, como a marcha Retrato do Velho de Haroldo Lobo e Marino Pinto. Em 1951 a Portela desfila com o enredo A volta do filho pródigo:

Trabalhadores do Brasil

A lei trabalhista ele deixou

Aquele que em 30 triunfou

Desse povo justiceiro…[15]

Mas nem tudo eram flores para o Carnaval. Em 1946 foi criado, com base no Decreto n° 20.493, o Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) que servirá de base para os censores da ditadura pós-1964. O regime militar reforça a censura devido ao advento da televisão e da cultura hippie que invadem o Brasil naquele momento conturbado.

Instala-se um conflito moral entre a classe média. De um lado, os conservadores que defendiam que o Brasil estaria passando por uma crise moral. Enviavam cartas para a Divisão de Censura de Diversões Públicas exigindo o aumento da repressão sobre o carnaval. Por outro lado, havia uma classe média que defendia a contracultura, a liberdade feminina e os festejos carnavalescos.

“As transgressões morais passaram a ser vistas como subversivas e aliadas ao suposto projeto comunista de destruir a família e a juventude”.[16] O Estado ditador fazia uma associação do comunismo com o carnaval, entendendo que ambos buscavam desafiar a ordem e suspender os valores estabelecidos. Por isso, carnavalescos eram investigados por suspeita de comunismo. Em nome da moralidade foram proibidos os biquínis e os travestis eram impedidos de desfilar nas escolas de samba.

A opressão do capital

Hoje a repressão feita sobre o carnaval não vem mais da Igreja e muito menos do Estado. O capitalismo é o verdadeiro vilão da história. Os acentos da Marquês de Sapucaí estão cada vez mais caros. O sambódromo se tornou um grande espaço para a propaganda e marketing.

Os camarotes de bilionários e famosos são filmados para que o luxo seja exibido nas redes sociais. O Carnaval se enquadrou na sociedade do espetáculo. O povo das comunidades, que vivem o carnaval por um longo período do ano, é escorraçado da arquibancada.

Mas as marcas do povo podem ser encontradas no samba-enredo. Hoje, grande parte deles são sobre a mitologia yorubá. As religiões de matriz africana são celebradas durante os desfiles na Sapucaí. Além disso, o povo da comunidade tem presença na avenida, embora os destaques dos carros alegóricos sejam dos membros das elites.

Devido ao alto preço dos assentos da Sapucaí, o povo decidiu frequentar os blocos de rua. Pesquisas apontam que houve uma queda no acesso à Sapucaí ao mesmo tempo em que houve um crescimento no número de blocos de rua. Estes, paradoxalmente, não expressam os elementos das religiões africanas, apenas a música afro-brasileira. Tudo se torna samba. Músicas e bandas de rock que a classe média consome, são transformados em samba na folia. As pessoas têm seu espaço para tirar fotos e postar em seu Instagram para provar que são felizes, uma exigência imperativa da sociedade do espetáculo.

Grande parte destes foliões são provenientes da classe baixa que se tornou classe média durante os governos do PT. Adquiriram novos ingredientes culturais que passaram para a folia momesca. Não pertencem às comunidades que produzem as escolas de samba, mas também não possuem tanto para ir nas três noites dos desfiles da Marquês de Sapucaí. A rua, para essa classe média, se tornou a válvula de escape mais acessível.

O povo sempre buscou uma forma de burlar a repressão da Igreja e do Estado sobre o carnaval. Hoje, com a repressão vinda das leis impiedosas do mercado, o povo também resiste fortalecendo os blocos de rua. Sob o regime do capital, festejar de forma gratuita é uma maneira de ser rebelde. A própria prefeitura do Rio de Janeiro viu nesse movimento um caminho para não aumentar a tensão dos “excluídos da Sapucaí”, e passou a investir nos blocos de rua, evitando a repressão que outrora caía sobre os foliões.

O costume de festejar o Carnaval sempre venceu a repressão sobre ele. Independente de onde vinha. Seja da Igreja, do Estado ou do capital. Sendo assim, o Carnaval é um costume rebelde que persistirá ainda por muitos anos.

[1] THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 19.

[2] BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Huicitec, 1996, p. 9.

[3] BURKE, P. A cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p. 210.

[4] SCHWARCZ, L. As barbas do imperador. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 278.

[5] “Folia quase interrompida”. RHBN, fevereiro 2010, p. 86

[6] SCHWARCZ L, p. 281.

[8] BRASIL, E. A corte é dos Cucumbis. RHBN, setembro, 2014, p. 73.

[9] PEREIRA, C. Os senhores da alegria: a presença das mulheres nas Grandes Sociedades Carnavalescas cariocas em fins do século XIX. CUNHA, M. (org.). Carnavais e outras frestas. Campinas, Edunicamp, 2002, p. 314.

[11] SOIHET, R. Festa da Penha: resistência e interpretação cultural (1890-1920).CUNHA, M. (org.). Carnavais e outras frestas. Campinas, Edunicamp, 2002, p. 356.

[12] SEVCENKO, N. Literatura como missão. São Paulo: Cia das Letras, 2003, p. 47.

[13] BEZERRA, D. Carnavais do Rio de Janeiro e seus usos pelo Estado Novo (1938-1942). In: ANPUH, XXVII Simpósio Nacional de História, Natal, 2013, p. 6.

[15] ANGELI, D. “A volta do filho pródigo”: getulismo, trabalhos e cultura popular nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro em 1951. Sillogés, v. 4. n. 1. jan/Jun, 2021, p. 343.

[16] MAZIERO, E. Carnaval e moralidade durante a ditadura militar. ANPUH, XXVIII Simpósio de História Nacional, Florianópolis, 2014, p. 13.


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