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Democracia ou Oligarquia Global? O novo conflito do capitalismo

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20.02.2026

Artigo de Stiglitz e Ghosh (Project Syndicate, 06/02/2026) alerta sobre ameaça à governança democrática devido à sabotagem da cooperação fiscal multilateral e concentração de poder transnacional.

Estima-se que o mundo perde US$ 492 bilhões/ano devido a abusos fiscais globais, impactando economias de renda média e baixa, com a competição tributária sendo usada como estratégia deliberada.

A ascensão da extrema direita, o enfraquecimento da cooperação fiscal e a redução de impostos sobre grandes fortunas ameaçam a democracia, com o capital influenciando o sistema político.

O conflito central do século XXI é entre a consolidação de oligarquias globais e a reconstrução de mecanismos de cooperação internacional para tributar riqueza extrema e regular fluxos financeiros.

A pergunta que começa a atravessar o debate internacional não é apenas quem liderará a economia mundial, mas quem governará o capitalismo. Como argumentam Joseph Stiglitz e Jayati Ghosh no artigo “Will Democracy Govern Capitalism — or Be Consumed by It?”, publicado no Project Syndicate em 6 de fevereiro de 2026, os esforços para sabotar a cooperação fiscal multilateral configuram uma ameaça estrutural à governança democrática. Tributar a riqueza extrema deixou de ser apenas uma questão distributiva — tornou-se condição de sobrevivência institucional.

A formulação é forte. E necessária.

O capitalismo sempre conviveu com desigualdades. Mas o que se observa hoje não é apenas concentração de renda. É a consolidação de um poder transnacional capaz de influenciar legislações, bloquear regulações, financiar campanhas, moldar decisões judiciais e reconfigurar a própria arquitetura institucional de países inteiros.

A questão deixou de ser apenas econômica. Tornou-se estruturalmente política.

Estamos diante de um conflito que atravessa fronteiras e sistemas: democracia ou oligarquia global?

A sabotagem da cooperação fiscal

Nos últimos anos, a tentativa de estabelecer um imposto mínimo global sobre grandes corporações — articulada no âmbito da OCDE e envolvendo mais de 130 países — parecia sinalizar algum grau de coordenação internacional diante da evasão fiscal sistêmica.

A proposta buscava enfrentar a corrida para o fundo do poço na tributação corporativa e limitar o deslocamento artificial de lucros para paraísos fiscais.

Mas o que se viu foi resistência organizada. Pressões de lobbies empresariais, bloqueios legislativos, disputas estratégicas entre grandes potências e hesitações políticas enfraqueceram a implementação efetiva do acordo.

Os números revelam o tamanho da distorção.

A Tax Justice Network estima que o mundo perde cerca de US$ 492 bilhões por ano em abusos fiscais globais. Aproximadamente US$ 348 bilhões decorrem do deslocamento de lucros de grandes corporações para jurisdições de baixa tributação. Outros US$ 144 bilhões estão associados à evasão praticada por indivíduos de alta renda.

A própria OCDE reconhece que práticas de erosão da base tributária e transferência de lucros (BEPS) representam perdas entre 4% e 10% da arrecadação global de imposto corporativo, algo entre US$ 100 e 240 bilhões anuais.

O impacto é ainda mais devastador para economias de renda média e baixa, que perdem em média 1,3% do PIB devido à erosão tributária — percentual muito superior ao observado nas economias avançadas.

Não se trata de ineficiência técnica. Trata-se de poder.

A competição tributária tornou-se estratégia deliberada. Paraísos fiscais funcionam como válvulas estruturais de drenagem de receitas públicas. Conglomerados digitais deslocam lucros por engenharia contábil sofisticada. A riqueza extrema circula com velocidade superior à capacidade regulatória dos Estados.

O resultado é previsível: erosão fiscal, compressão do espaço orçamentário, fragilização de políticas públicas e crescente dependência financeira.

Sem capacidade tributária, a democracia perde densidade material.

E democracia sem base material torna-se ritual.

Do neoliberalismo ao cesarismo contemporâneo

Durante décadas, o neoliberalismo vendeu a redução do Estado como sinônimo de eficiência e modernização. Hoje, o que se observa é algo distinto: não apenas menos Estado, mas Estado capturado.

A financeirização global ampliou a influência de grandes fundos de investimento, conglomerados digitais e bilionários com capacidade de pressionar governos e moldar regulações. Plataformas tecnológicas tornaram-se infraestruturas essenciais da vida econômica e social. O capital não apenas influencia o sistema político — ele passa a operar como seu centro gravitacional.

É nesse contexto que ganha sentido a ideia de um “cesarismo do século XXI”.

Historicamente, o cesarismo refere-se à concentração de poder em uma figura ou grupo que preserva formalmente instituições, mas esvazia seu conteúdo democrático. A aparência de legalidade permanece; a substância da decisão coletiva é reduzida.

No mundo contemporâneo, esse cesarismo não precisa de um único líder carismático. Ele pode assumir a forma de uma elite econômica que governa por dentro das instituições, financiando campanhas, influenciando legislações, ocupando espaços estratégicos e definindo os limites do possível.

A democracia formal permanece. A democracia substantiva encolhe.

A política torna-se refém da riqueza extrema.

A extrema direita como veículo

Não é coincidência que a ascensão de forças de extrema direita em diversas democracias tenha ocorrido paralelamente ao enfraquecimento da cooperação fiscal internacional e à redução de impostos sobre grandes fortunas e corporações.

O discurso nacionalista denuncia “elites globais” enquanto desmonta instrumentos de regulação do capital e concentra poder no Executivo.

Essa combinação é politicamente eficaz e economicamente regressiva.

Mobiliza ressentimentos sociais, canaliza frustrações econômicas contra inimigos externos ou minorias internas e, simultaneamente, reduz mecanismos institucionais de controle sobre o grande capital.

O discurso antiestablishment pode coexistir com a consolidação de elites ainda mais concentradas.

O cesarismo contemporâneo não depende necessariamente de ruptura institucional explícita. Ele pode emergir por meio de lideranças eleitas que enfraquecem freios e contrapesos, tensionam tribunais, pressionam parlamentos e operam em simbiose com grandes interesses econômicos.

A erosão democrática torna-se gradual. E legitimada pelo voto.

A bifurcação histórica

O conflito central do século XXI não será apenas entre potências. Será entre dois modelos de organização do capitalismo.

De um lado, a continuidade da fragmentação fiscal, da mobilidade irrestrita da riqueza e da captura regulatória — terreno fértil para a consolidação de oligarquias globais.

De outro, a reconstrução de mecanismos de cooperação internacional capazes de tributar riqueza extrema, regular fluxos financeiros e restaurar a autonomia decisória dos Estados.

A tributação da riqueza não é apenas instrumento redistributivo. É instrumento democrático.

Sem capacidade de tributar os extremamente ricos, os Estados perdem soberania material. E, sem soberania material, a democracia converte-se em formalidade institucional sem capacidade efetiva de decisão.

O capitalismo do século XX foi estabilizado por sistemas tributários progressivos, regulação financeira e instituições democráticas capazes de conter a concentração excessiva de poder econômico.

A erosão desses mecanismos não ameaça apenas a equidade. Ameaça a própria legitimidade do sistema.

O mundo já ingressou numa fase pós-hegemônica em termos geoeconômicos. A questão decisiva é se ingressará também numa fase pós-democrática.

A disputa do nosso tempo não é apenas territorial. Não é apenas tecnológica. Não é apenas monetária.

É a disputa sobre quem governa o capital — e sob quais limites.

E essa resposta definirá não apenas o futuro do capitalismo, mas o futuro da própria democracia.


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