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2026: entre a reorganização da direita, a estabilidade econômica e o lugar do Brasil no mundo

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22.02.2026

Eleição de 2026 no Brasil terá polarização consolidada, oposição em reorganização e economia com indicadores melhores que em 2018.

Flávio Bolsonaro surge como herdeiro da extrema direita, mas enfrenta desafios para expandir eleitorado além do núcleo bolsonarista.

Governo Lula reposicionou o Brasil internacionalmente e busca estabilidade econômica, mas percepção de melhora cotidiana ainda não acompanha indicadores.

Cenário para 2026 depende de qual projeto oferecerá maior capacidade de lidar com um mundo instável, com estabilidade econômica e inserção internacional como fatores-chave.

A eleição presidencial de 2026 não será uma repetição automática de 2022 nem uma simples extensão do ciclo iniciado em 2018. O país chega ao próximo pleito com três características estruturais que moldarão a disputa: uma polarização consolidada, uma oposição em reorganização e uma economia que, embora longe de euforia, apresenta indicadores significativamente distintos daqueles que alimentaram a onda antipolítica do passado recente.

A inelegibilidade de Jair Bolsonaro encerrou um capítulo jurídico, mas não dissolveu o fenômeno político que ele catalisou. O bolsonarismo transformou-se em corrente organizada da extrema direita brasileira, com base social consistente, presença digital disciplinada e narrativa ideológica centrada no antagonismo permanente.

Pesquisas recentes da Genial/Quaest e do Datafolha indicam que seu núcleo duro permanece estável, oscilando entre 25% e 30% do eleitorado. Trata-se de contingente suficiente para garantir competitividade no primeiro turno e influência decisiva no segundo.

Esse dado, por si só, impede qualquer leitura complacente.

A herança e os limites de Flávio Bolsonaro

É nesse contexto que Flávio Bolsonaro surge como herdeiro natural da extrema direita. Sua eventual candidatura repousaria fundamentalmente sobre continuidade simbólica e sobre a narrativa de perseguição ao ex-presidente. O sobrenome funciona como âncora identitária para o eleitorado bolsonarista.

Mas há limites evidentes.

Flávio não construiu trajetória administrativa nacional nem apresentou projeto econômico estruturado. Sua viabilidade dependerá menos de propostas e mais da capacidade de manter coeso o eleitorado ideologicamente mobilizado. O problema é que eleições presidenciais exigem expansão para além do núcleo duro. E é justamente nesse ponto que começam as dificuldades.

Entre 2019 e 2022, sob o governo de Jair Messias Bolsonaro, o Brasil registrou crescimento medíocre, forte volatilidade institucional e perda de protagonismo diplomático. A taxa de desemprego permaneceu elevada por período prolongado, a inflação corroeu renda e a política externa assumiu caráter de alinhamento ideológico.

A extrema direita brasileira reivindica soberania, mas sua prática recente foi marcada por alinhamento automático a Donald Trump, apoio irrestrito ao israelense Benjamin Netanyahu mesmo diante de denúncias internacionais graves envolvendo territórios ocupados e população palestina, e simpatia explícita pelo polêmico presidente argentino Javier Milei, cuja agenda ultraliberal produziu forte retração social e compressão de direitos trabalhistas na Argentina.

Não se trata de soberania estratégica. Trata-se de alinhamento ideológico seletivo.

Essa dimensão internacional não é secundária. Ela afeta comércio, investimentos, acordos climáticos e credibilidade institucional. Em um mundo em transição — com reconfiguração do eixo econômico global e crescente disputa tecnológica — a autonomia diplomática tornou-se ativo relevante.

O reposicionamento internacional de Lula

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva recolocou o Brasil no centro de fóruns multilaterais estratégicos. Retomou protagonismo no G20, fortaleceu articulação no BRICS, ampliou diálogo com o Mercosul, União Europeia, China, Índia, Estados Unidos e países africanos. Reposicionou o país na agenda climática e reativou mecanismos de cooperação sul-americana.

A política externa voltou a operar como instrumento de desenvolvimento e inserção global, não como palco de guerra cultural. Essa diferença pode não ser central no debate cotidiano, mas influencia diretamente fluxos de investimento e percepção de estabilidade.

E estabilidade, no Brasil contemporâneo, tornou-se valor político.

Economia: variável decisiva?

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego encontra-se em patamar próximo aos menores níveis da série histórica recente. O crescimento acumulado desde 2023 superou previsões iniciais do mercado. O salário mínimo voltou a registrar ganho real. A política industrial foi retomada e o investimento público, embora ainda insuficiente, voltou ao centro da agenda econômica.

Persistem desafios relevantes: juros extremamente elevados comprimem crédito, o endividamento das famílias permanece alto e a percepção de custo de vida continua sensível. A classe média urbana mostra ambivalência nas pesquisas de opinião.

Mas há diferença estrutural em relação a 2018: o país não atravessa recessão profunda nem colapso institucional.

Entretanto, um dado vem se consolidando em diversas análises qualitativas e quantitativas: uma parcela significativa da população declara que sua situação pessoal “ainda não melhorou” de maneira perceptível, apesar da recuperação de indicadores macroeconômicos e da recomposição de programas sociais. A inflação perdeu intensidade, mas o custo acumulado dos últimos anos ainda pesa na memória das famílias. A recomposição salarial é real, mas parte do ganho é absorvida por endividamento elevado e serviços mais caros. Em outras palavras, a macroeconomia melhora mais rápido do que a percepção cotidiana. Esse hiato entre indicador e sensação é politicamente relevante — e pode ser explorado pela oposição.

Eleições presidenciais no Brasil raramente são vencidas contra um cenário econômico em melhora perceptível.

A direita para além do clã Bolsonaro

A oposição ensaia alternativas que ultrapassem a herança direta do bolsonarismo. Tarcísio de Freitas é visto por setores da Faria Lima como nome tecnicamente confiável, capaz de oferecer previsibilidade fiscal. No entanto, sua trajetória é inseparável do bolsonarismo. Declarações públicas controversas e alinhamentos ideológicos reduzem sua margem de expansão para além da base conservadora. Seu desafio é ampliar eleitorado sem romper com o campo que o sustenta.

Romeu Zema aposta em narrativa liberal de eficiência administrativa, mas enfrenta limites de projeção nacional. Ronaldo Caiado ancora-se no conservadorismo rural e na agenda de segurança pública, com alcance regional consistente, porém incerto em escala nacional.

A questão central é a convergência. Uma direita fragmentada favorece o governo. Uma candidatura unificada reequilibra o jogo.

Primeiro e segundo turno: dinâmicas distintas

No primeiro turno, a disputa tende a refletir identidades políticas consolidadas. O núcleo bolsonarista garante base mínima robusta. O lulismo mantém capilaridade social e regional. Nomes alternativos da direita podem funcionar como válvulas de escape para setores moderados.

No segundo turno, entretanto, a lógica muda. A eleição deixa de ser afirmação identitária e passa a ser escolha comparativa. É nesse momento que variáveis como estabilidade econômica, credibilidade internacional e memória institucional ganham peso.

As pesquisas revelam ainda um elemento decisivo: os índices de rejeição. Tanto Lula quanto o campo bolsonarista apresentam taxas elevadas de rejeição, ainda que por razões distintas. No caso de Lula, a rejeição parece associada à fadiga de ciclo político prolongado, ao antipetismo sedimentado desde meados da década passada e, sobretudo, à percepção de que a melhora macroeconômica ainda não se traduziu plenamente na vida cotidiana de parte do eleitorado. Já no caso da extrema direita, a rejeição está mais vinculada à memória de radicalização institucional, instabilidade e alinhamento externo ideológico. Em eleições altamente polarizadas, rejeição não é detalhe estatístico — é limite estrutural de expansão.

Se o debate for capturado pela guerra cultural, a extrema direita recupera tração. Se for ancorado em renda, emprego e previsibilidade institucional, o governo tende a se beneficiar.

O que está realmente em disputa

Acredito que 2026 será menos um plebiscito moral e mais um teste sobre qual projeto oferece maior capacidade de atravessar um mundo instável. De um lado, radicalização permanente, alinhamentos ideológicos externos e política de confronto interno. De outro, estabilidade institucional, inserção diplomática autônoma e aposta no desenvolvimento.

Mas o Brasil chega a 2026 menos fragilizado economicamente e mais integrado internacionalmente do que chegou a 2018. Essa diferença é estrutural.

E pode ser determinante.


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