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Ascensão e queda

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19.02.2026

Uma árvore Tipuana de 110 anos caiu na rua Marquês de Itú, em Higienópolis, São Paulo, sem causa aparente como chuva ou vendaval.

A queda da árvore, que não feriu ninguém, danificou a calçada e atingiu um prédio, expondo a falta de cuidado com as árvores urbanas em SP.

A Tipuana, originária da Argentina, era um ponto de encontro para pessoas e animais, oferecendo sombra e abrigo em meio à cidade.

Especialistas defendem que Tipuanas são adequadas para áreas verdes amplas, como parques, e necessitam de mais atenção e cuidado nas cidades.

Notícia é como pão, quanto mais fresca melhor. E as redações não tinham do que reclamar naquela quarta-feira. Aumento da gasolina. Punição para juiz suspeito de assédio. Reviravolta no caso do cachorro Orelha. Reforço no Corinthians.

O editor leu, releu e não se convenceu. A manchete do dia não estava entre aqueles fatos, brilhava em uma imagem.

Uma árvore centenária caiu, fechou o trânsito, atingiu um prédio e assustou o bairro. Embaixo da foto, que ocupou metade da primeira página, o jornalista escreveu: Rotina de queda de árvores em SP já não requer chuva forte.

Como informou a manchete, nada houve de tempestade, nem vendaval e muito menos batida de caminhão. A Tipuana despencou sem nenhuma explicação e com o estrondo de 500 trovões.

Passava um pouco das oito da manhã e um chuvisco frouxo lavava a rua Marquês de Itú, em Higienópolis. Em uma engenhosa combinação de movimentos, a motorista saiu da garagem, o porteiro limpou a mesa de trabalho em vez de varrer a calçada, um homem atravessou de lá pra cá e a estudante seguiu o caminho contrário. Nesse momento, com a rua livre de pessoas e de carros, a árvore, de 20 metros de altura, desabou.

Foi como gangorra. A copa e o tronco caíram e a raiz emergiu com força, levantando calçada, pedras e terra.

É quase certo dizer que nenhum dos moradores daquela rua tinha a idade da Tipuana, cerca de 110 anos. Mais que isso, quando plantaram a muda, a rua era de terra. Vieram as carroças, mulas, gente, postes, bonde, fumaça. Toda essa revolução sem que a veterana moradora fosse observada, tratada. Uma poda aqui, outra ali, vá lá, acredito. Porém, muito menos do que merecia depois de nos dar um século de oxigênio.

Se até os postes são cuidados, por que não as Tipuanas?

A gigante crescia e quanto mais subia menos espaço tinha. Embaixo, um mísero naco de terra na calçada sufocante; em cima, a busca por um raio de sol, escondido pelos espigões. Dos dois lados o mesmo aperto. Liberdade ela sempre quis e nunca teve.

A história da velha senhora, que aqui floreio, teve seus capítulos de glória. Sabiás, sanhaços e bem-te-vis batiam o ponto e as asas no conforto de sua copa. Ali fizeram ninho e família.

Macunaíma, cachorro malhado acostumado a respingar a Tipuana com o primeiro xixi do dia, era outro amigo fiel.

Sob a mesma sombra farta e fresca paravam catadores de papelão e a gente que descia em direção ao centro depois de almoçar num restaurante de prato feito. Às quintas, dia de feira na vizinhança, carrinhos circulavam com as compras da semana.

Eu mesmo passava pela Tipuana, dia sim, dia não. Tronco taludo, casca grossa e firme. A partir do primeiro metro de altura, surgia uma folhagem que se grudava e se espalhava por galhos sinuosos. Na primavera, se vestia de amarelo ouro, tal qual gema de ovo. Depois, pintava a calçada.

Muitas vezes parei ali, com o pescoço esticado pra cima, a imaginar uma família. O tronco bifurcava, os dois braços viravam quatro, dezesseis. Perdia a conta, mas percebia que eram galhos travessos. Uns se esticavam pro alto, outros se espalhavam para os lados. Tal qual filhos, sobrinhos, netos. Cada um com suas certezas, sua paixão, seu destino.

Quem mora, trabalha ou só passa por ali, para, olha e comenta. “Ainda bem que ninguém se machucou”. “Sempre achei que tava torta para aquele lado”. “Você viu que saiu no jornal?”.  “Não leio jornal”.

De origem argentina, as Tipuanas vieram e ficaram em São Paulo, terra de tantos imigrantes. Será a árvore certa para nossos bairros? É o que pergunto a Takanoli Tokunaga, um mestre que sabe ouvir a natureza e compreender as plantas. “Tipuanas podem fazer muito bem à cidade e devem ser plantadas em áreas verdes com espaço, como praças e parques”. É a resposta do professor.

Carinho e cuidado, é o mínimo que nossas velhas senhoras merecem.

*Luis Cosme Pinto escreveu “Acabou, mas continua”, da editora Cachalote.


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