Mito, joias e cloroquina: sugestões para um desfile carnavalesco “sem partido” em homenagem a Bolsonaro
Artigo propõe desfile carnavalesco "sem partido" em homenagem a Jair Bolsonaro, com financiamento independente e valores da "família tradicional brasileira".
Sugere alas e carros alegóricos exaltando feitos de Bolsonaro, figuras do bolsonarismo, a Teologia da Prosperidade e contestando a ciência.
Propõe críticas a Lula, com divulgação de "verdades" de grupos extremistas, e finaliza com ala dedicada ao "Futuro Utópico" com Bolsonaro.
A homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente Lula fez os bolsonaristas espumarem de raiva nas redes sociais. Como diz uma expressão atual, a escola de samba alugou um triplex na mente da extrema direita brasileira. Isso fez aumentar ainda mais o ódio desse pessoal ao carnaval. Mas, se Lula pode receber uma homenagem em plena Marquês de Sapucaí, por que Jair Bolsonaro não merece o mesmo? Pensando nisso, resolvi escrever esse artigo, com propostas para um enredo sobre o “mito”.
Em primeiro lugar, essa escola deve ser “sem partido” e sem recursos da Lei Rouanet, política pública responsável por financiar artistas comunistas. Lembrando o grande pensador contemporâneo Túlio Maravilha, os valores dessa agremiação devem estar alinhados aos da família tradicional brasileira. O samba seria composto pela nata dos músicos bolsonaristas: Roger Moreira, Gusttavo Lima e Sérgio Reis, entre outros grandes nomes. A transmissão do desfile será exclusiva da Jovem Pan.
Se a comissão de frente da Acadêmicos de Niterói ressaltou a volta por cima de Lula nos últimos anos, com destaque para sua prisão política e eleição para o terceiro mandato, a hipotética escola que homenagearia Bolsonaro não pode ficar atrás. Com fantasias que remetem aos grupos do WhatsApp, serão ressaltados todos os “feitos” do mito em sua luta contra o “sistema”: plano para explodir bombas-relógios em unidades militares, sobrevivência à facada encomendada pela esquerda, eliminação da ideologia de gênero nas escolas, fim do kit gay, salvar o Brasil do comunismo em 2018, criação do pix, transposição do Rio São Francisco e sua atuação impecável durante a gripezinha do vírus chinês.
Em sequência, o “abre-alas”, em defesa da tradicional família cristã brasileira, terá a participação daqueles indivíduos que sonegam imposto de renda, espancam suas esposas, subornam funcionários públicos, fraudam concursos, possuem várias amantes e também filhos bastardos; porém se consideram “exemplos de honestidade e moralidade”.
Os adereços serão joias vindas especialmente da Arábia Saudita. De acordo com a “cartilha Damares Alves”, em relação às fantasias, meninas vestem rosa e meninos vestem azul. Nada de gays, lésbicas ou travestis. Seguindo o padrão conservador, sem “promiscuidade”. No entanto, para não falar que nesse desfile não haverá “representatividade”, uma das alas homenageará os Capitães do Mato, os verdadeiros “heróis negros”, pois prestaram importantes serviços para manter a ordem pública. Também seriam mencionados os “escravos” do “líder terrorista” Zumbi dos Palmares.
E já que a questão é “ordem e progresso”, a ala dos Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs) promete fazer barulho – literalmente. Com fantasias de fuzis AR-15, pistolas .40 e escopetas calibre 12, os integrantes desfilarão atirando para o alto (com balas de festim, claro, porque a segurança pública é prioridade). Crianças fantasiadas de “bala perdida” correrão entre os foliões, numa alusão ao sonho de todo pai conservador: ver o filho armado desde o berço. O carro alegórico, em forma de revólver gigante, trará a inscrição: “Direito de defesa (e de ataque, se necessário)”.
Outros grandes “heróis nacionais”, anônimos e conhecidos, que influenciaram a atuação política de Bolsonaro ou seguiram firme em apoio ao “mito”, deverão ser exaltados durante o desfile. Entre eles estão Olavo de Carvalho, Brilhante Ustra, todos os ditadores/presidentes do Brasil, os rezadores para pneus, os patriotas do 8 de janeiro e as pessoas que acamparam em frente a quartéis.
A questão espiritual não poderia ficar de fora. Afinal, o bolsonarismo encontrou nas igrejas neopentecostais seu principal quinhão eleitoral. Por isso, uma ala especial homenageará a Teologia da Prosperidade em sua forma mais autêntica: pastores que trocam votos por cestas básicas, fiéis que depositam o dízimo esperando retorno em dobro e santos guerreiros que fazem “oração forte” para derrubar ministros comunistas do STF. O carro alegórico, intitulado “Igreja Universal do Reino de Bolsonaro”, virá repleto de capivaras de ouro, jatinhos particulares e uma réplica gigante do Templo de Salomão – afinal, nada mais cristão do que acumular riquezas terrenas em nome de Deus.
As falas históricas de Jair Bolsonaro também merecerão destaque, como “Só não te estupro porque você não merece”, “Um pai preferiria ver um filho machucado por brincar de futebol do que brincando com bonecas por influência da escola”, “Quilombola não serve nem para procriar” e “Sou favorável à tortura”. Um claro exemplo de amor cristão.
A ciência, essa velha conhecida dos comunistas, também será devidamente homenageada – ou melhor, contestada. Uma ala inteira celebrará o “tratamento precoce”, com integrantes empunhando comprimidos de cloroquina do tamanho de rodas de caminhão, enquanto médicos sem registro (mas com muitos seguidores nas redes) entoarão o grito: “Gripezinha: eu não tomei vacina e estou aqui”. O carro alegórico do Kit Covid virá abarrotado de ivermectina, azitromicina e placebo, com uma faixa: “A ciência pode até discordar, mas a fé no presidente cura”.
Mostrando todo o patriotismo de Bolsonaro, uma ala terá as cores da bandeira dos Estados Unidos, defesa de sanções contra o Brasil e uma faixa escrita “I love you, Trump!”. Outro país homenageado será Israel, nação mais cristã do mundo.
Como Bolsonaro foi ridicularizado no desfile da Niterói, nada mais justo do que Lula também ser criticado. Assim, “verdades” sobre o atual presidente serão divulgadas, diretamente do grupo de zap da Terra Plana: seus muitos clones, o projeto no Foro de São Paulo para implantar o comunismo na América Latina e o plano para queimar igrejas.
Há um carro alegórico previsto para lembrar todos os grandes projetos de Jair Bolsonaro em suas quase três décadas como deputado federal. Porém, muito provavelmente, os carnavalescos terão dificuldade para encontrar algum conteúdo.
Por fim, como todo bom bolsonarista vive de esperanças futuras, o desfile terminará com uma ala dedicada ao “Futuro Utópico” (ou distópico?). Crianças fantasiadas de “futuros milicianos” desfilarão ao lado de “rainhas dos caminhoneiros”, enquanto um carro alegórico em forma de nuvem carregará a imagem de Jair Bolsonaro sorridente, flutuando acima da realidade – imaculado, inelegível, mas presente no coração dos fiéis. Atrás, uma faixa enorme: “Bolsonaro 2026”, sustentada por eleitores que insistem em ver o mito onde só há miragem.
Se no resultado a ser divulgado na quarta-feira de cinzas, a escola que homenageará Bolsonaro não for declarada campeã, evidentemente, será pedida uma apuração “impressa e auditável”. A culpa será do ministro comunista Alexandre de Moraes. Não sendo possível, é só aguardar setenta e duas horas, fazendo arminha com a mão, que a notícia positiva chegará. Basta acreditar!
