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O dilema da barata e a farsa da direita antissistema

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21.02.2026

Artigo analisa a adesão de classes populares a projetos políticos de direita que as prejudicam, comparando-as a "baratas" que votam no "inseticida".

A direita, segundo o artigo, cria um "pseudoambiente" de desconfiança e raiva, manipulando emoções e usando algoritmos para polarizar e direcionar o voto dos mais pobres.

O autor defende a necessidade de "alfabetização midiática radical" e reconstrução de instituições de base para combater a manipulação e oferecer alternativas de futuro.

Concentração de renda e desigualdade são apontadas como fatores que intensificam o voto "contra si mesmo", alimentando o autoritarismo e o cinismo.

O pobre que odeia o pobre, que vota contra seus próprios interesses, que abraça o discurso que o explora – não é um idiota moral. Ele é um habitante da pseudoconcreticidade. Esta é a primeira verdade que precisamos assimilar se quisermos compreender o fenômeno mais perturbador da política contemporânea: a adesão das classes populares a projetos políticos que as empobrecem ainda mais.

A direita construiu para si a máscara perfeita: a do rebelde, do outsider, do que vem para “drenar o pântano”. Quando o pobre exerce o voto “contra o sistema” elegendo essa representação oi, fortalece os pilares do sistema que o oprime. Seria como a barata escolher a sandália que a esmagará.

Como isso é possível?

Vivemos sob um regime de simulacro. A direita ataca “as elites” – mas ela própria representa as elites econômicas, políticas e familiares. Banqueiros, agroindustriais, grandes empresários financiam suas campanhas e sua militância online. Famílias tradicionais que se revezam no poder há gerações encontram nela sua nova vitrine. No entanto, seu discurso é sistematicamente dirigido contra “as elites” – não as elites reais do capital, mas elites fantasmagóricas: a “elite globalista”, a “elite midiática”, a “elite cultural”.

O inimigo é deslocado do terreno econômico (onde a direita atua para concentrar renda) para o terreno abstrato, “cultural” (onde ela pode posar de defensora do “povo” contra “intelectuais” e “artistas”). Canaliza-se a raiva legítima do explorado contra alvos que não ameaçam a estrutura da exploração. O pobre aprende a odiar os impostos que financiam o sistema único de suade que o beneficia, a odiar o professor universitário, o ator de novela, o militante de direitos humanos – não o patrão que paga mal, não o banco que cobra juros abusivos, não o latifúndio que destrói a natureza e ataca os povos originários.

Foi Walter Lippmann quem, em 1922, nos deu a chave para compreender esse fenômeno. Entre o mundo real e a consciência das pessoas existe uma espessa camada de mediações – o pseudoambiente: um mapa mental simplificado, feito de estereótipos e palavras de ordem, que substitui a complexidade do mundo por representações manipuláveis. As pessoas reagem ao pseudoambiente como se fosse a própria realidade – e é nele que tomam suas decisões.

O pobre que vota na direita não está votando “contra si mesmo” na realidade objetiva. Ele está votando dentro do pseudoambiente que lhe foi construído, onde o patrão é “gerador de empregos”, o sindicalista é “vagabundo”, o professor é “doutrinador”, e o político de direita é “herói”.

Karel Kosík chamou isso de pseudoconcreticidade: o mundo da aparência fetichizada que se apresenta como realidade, ocultando as estruturas profundas. A barata não nasce votando no inseticida; ela é ensinada, dia após dia, a ver no inseticida um amigo.

Decisões através das emoções

A neurociência confirma: tomamos decisões não apesar das emoções, mas através delas. O eleitor pobre não computa mal os dados – ele opera dentro de um sistema emocional cuidadosamente construído. Seu voto não é erro de cálculo, é resposta emocional a um mundo que lhe foi apresentado de determinada maneira.

As big techs e seus algoritmos são hoje a fábrica industrial desse pseudoambiente. Projetados para otimizar o engajamento, e o engajamento é otimizado pela raiva, pelo medo, pela simplificação. O modo de ver contemporâneo é treinado por máquinas que lucram com nossa polarização.

Há ainda uma dimensão material inescapável: a desigualdade. O voto “contra si mesmo” ocorre com mais intensidade justamente nas regiões onde a concentração de renda mais cresceu nas últimas décadas. O capitalismo patrimonial, com sua reprodução dinástica da riqueza, cria um eleitorado desesperançado – e a desesperança é o combustível do autoritarismo.

O que a nova direita entendeu é que o poder não está mais em construir consensos, mas em destruí-los. O objetivo não é convencer – é desestabilizar. É criar um ambiente onde ninguém confie em nada, exceto no líder carismático que promete ordem. A emoção que mobilizam não é apenas raiva – é cinismo. E o cinismo é a porta de entrada para o fascismo.

A destruição da pseudoconcreticidade é possível, mas exige que abandonemos a ilusão de que os fatos falarão por si mesmos. Exige que aprendamos a disputar o pseudoambiente com a mesma sofisticação com que a direita o constrói.

Precisamos de uma nova educação para o olhar – alfabetização midiática radical, que ensine como algoritmos funcionam, como emoções são manipuladas, como pseudoambientes são construídos. Precisamos de histórias que conectem a experiência individual à estrutura social, que ofereçam mapas mentais alternativos baseados na solidariedade, não no ódio.

Precisamos reconstruir instituições de base – clubes, associações, coletivos, sindicatos – onde as pessoas experimentem a solidariedade como prática cotidiana. O fascismo cresce no isolamento. A democracia se fortalece no vínculo.

Precisamos disputar o controle das plataformas digitais, seja por regulação, seja por criação de alternativas. Enquanto o algoritmo for otimizado para o engajamento, será otimizado para o extremismo.

Precisamos, sobretudo, oferecer visões concretas de futuro – como o Green New Deal – que mobilizem tanto quanto as visões apocalípticas da direita, mas que ofereçam esperança real, não bodes expiatórios.

O dilema da barata não será resolvido por decreto ou iluminação súbita. Será resolvido por uma longa, paciente e imaginativa reconstrução das condições materiais, das instituições democráticas, das narrativas coletivas e dos modos de ver.

Esta é a tarefa do nosso tempo. Esta é a luta. Este é o sentido da pedagogia dialética que precisamos inaugurar.

Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político


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