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O biombo feito com as palavras do cronista

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17.04.2026

Cronista veterano escrevia diariamente há décadas em uma redação de jornal.

Seus textos abordavam política, cotidiano e temas variados, sendo lidos com afeto e temor.

A rotina do cronista começou a mudar com a adoção de novas diretrizes editoriais.

Um jovem da equipe anunciou que o jornal está em processo de reestruturação e reposicionamento.

Havia, numa redação de jornal um cronista. Era um profissional da insistência: escrevia todos os dias como quem paga uma dívida que nunca termina.

Durante décadas, ocupou seu espaço com a regularidade de um relógio que, embora atrasado, ninguém tem coragem de ajustar. Falava de tudo: política, cotidiano, vizinhos barulhentos e pensamentos inúteis. Era lido com uma mistura de afeto e temor (o que, para um cronista, é quase um prêmio).

O jornal, porém, resolveu evoluir.

Evoluir, nesse caso, significava trocar o que ainda funcionava por algo que prometia funcionar melhor. Vieram as novas diretrizes, os novos gráficos, as novas palavras: reposicionamento, curadoria, dinâmica de audiência.

Um dia, chamaram o cronista.

— Estamos passando por uma reestruturação — disse um rapaz de barba bem aparada.

O cronista ouviu com atenção. Já sabia que a palavra reestruturação era uma espécie de elevador: você entra com um cargo e sai com um até logo.

— Seu espaço será descontinuado.

Ele agradeceu. Cronistas são assim: passam a vida descrevendo o absurdo e, quando ele finalmente chega, tratam com naturalidade.

Saiu da redação levando um envelope pardo com recortes antigos e uma caneta que já não escrevia. Foi embora com a leveza de quem não tinha mais prazo a cumprir.

Mais ágil, mais moderno, mais alinhado com tudo que não tinha cheiro de tinta. E, como acontece em toda boa evolução, o material antigo começou a se acumular.

Foi quando alguém teve uma ideia.

Meses depois, o cronista voltou ao prédio para buscar um documento esquecido. Ao entrar na redação, percebeu uma novidade na sala da diretoria: um biombo elegante com textura familiar.

O biombo era montado com pedaços de folhas. Fragmentos colados, justapostos, envernizados. E, nesses pedaços, havia palavras. Suas palavras.

Ali estavam frases arrancadas de suas crônicas, cortadas em ângulos imprecisos. Parágrafos interrompidos no meio de uma ideia. Títulos amputados. Um advérbio isolado aqui, uma ironia truncada ali. Suas crônicas não tinham sido apenas reaproveitadas, tinham sido picotadas, reorganizadas e comprimidas até virarem superfície.

Reconheceu ali frases suas. Crônicas inteiras. Sua vida editorial, agora reorganizada em painéis verticais, separando a diretoria do resto da redação.

— Ficou ótimo, não? — disse alguém, orgulhoso.

— A gente reaproveitou seu material. Sustentável!

O cronista passou a mão pelo biombo, como quem cumprimenta um parente.

Ali estavam seus pensamentos, que antes atravessavam o jornal inteiro, agora fixos, imóveis, cumprindo a nobre função de impedir que um editor visse outro editor mastigando.

Pensou em protestar. Mas seria incoerente: passara a vida dizendo que suas crônicas não serviam para nada prático.

Saiu sem fazer barulho. Ao alcançar a rua, teve a impressão de que finalmente encontrara seu lugar no mundo editorial: não mais no texto que circula, mas numa estrutura sustentável.

Naquela noite, escreveu uma crônica para si mesmo, o único leitor que restara. Nela, registrou que todo cronista, cedo ou tarde, acaba virando móvel.

“Primeiro, ocupa espaço. Depois, decora”.

E acrescentou, com uma pontinha de ironia:

“Mas acabei fazendo uma carreira sólida. Pelo menos, no sentido do mobiliário.”

Quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pela vida

Os grã-finos são bregas demais!

Piruliru baby, ha ha — Por Lelê Teles


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